Brasil fora da Copa. Ainda soa estranho. Era quase comum chegar à final. Denunciados os erros da última Copa, chegaria na final outra vez, como chegou em 94,98 e 2002. Mas cabe lembrar que precisaram cinco mundiais, depois 1970, para recordar o sentimento de participar de uma decisão. É hora de ponderar. Não foi só a farra que tirou o Brasil em 2006. Nem só os erros de convocação do Dunga, vide a aposta em Felipe Melo, tiraram-no desta.
O brasileiro, em geral, precisa gostar mais de futebol. Assim, saberia que Zidane jogou muita bola naquele jogo do Brasil contra a França. Também o futebol tirou a quarta final consecutiva de nossas mãos, o futebol que se manifestou através do craque francês. De maneira mais diluída, em todo o time da Holanda, ontem. E o que faz o torcedor brasileiro? Comemora cada gol aplicado contra a França nesse mundial. É o que fará agora esse mesmo torcedor. Certamente comemorará os gols contra o time da Holanda.
Mas a maior parte da energia se direciona para os jogos da Argentina. Já que não passou o Brasil, que não passem os hermanos. Este sentimento contagia o país, bem representado num comercial de cerveja, noutro de telefonia celular. Bem representado também por uma personagem do Primo Basílio, a Juliana. Passando os olhos por dentro dos desejos dela foi inevitável imaginá-los no famoso “torcer-contra”:
A necessidade de se constranger trouxe-lhe o hábito de odiar: odiou sobretudo as patroas. Tivera-as ricas com palacetes, e pobres, mulheres de empregados, velhas e raparigas, coléricas e pacientes – odiava-as todas, sem diferença. É patroa e basta! Pela mais simples palavra, pelo ato mais trivial! Se as visse sentadas: — Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via sair: — Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso delas era uma ofensa à sua tristeza doentia; cada vestido novo uma afronta ao seu velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo dia em voz de falsete a Carta adorada!


Impressionante e elogiável a comparação que fizestes com a personagem Juliana, mas não podemos olvidar que o episódio – baixo e antiesportivo -da água batizada ofertada ao time brazuca em certo jogo contribuiu sobremaneira para essa animosidade da torcida verde-amarela.
Dois erros não fazem um acerto, e na vingança não existe glória. Mas querer bem a um desafeto é tarefa de Hércules, para a qual 90% dos brasileiros estão despreparados.
Uma torcida que deseja – ou pior: se ACHA no direito de ver seu time ganhar TUDO – por natureza é uma torcidade cujo pensamento está absolutamente desvinculado das premissas que deveriam nortear todo e qualquer campeonato entre Nações.
Gostei do texto!
Abraços!