Em uma única noite, Inter, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro foram eliminados da Libertadores. Todos de forma surpreendente. Os casos de Inter, Cruzeiro e Fluminense foram mais drásticos. Inter e Cruzeiro um pouco mais, por ter acontecido dentro de casa. Na verdade, concordando com o filósofo espanhol Ortega y Gasset que o homem possui a tendência de fazer-se centro do universo, ainda mais se, por causalidade, esse homem for espanhol, afirmo com autoridade incontestável: a derrota do Cruzeiro foi a pior de todas.
A campanha na Libertadores estava impecável. Várias goleadas. Muitos gols feitos, poucos sofridos. Classificou-se para a segunda fase da competição em primeiríssimo lugar. Conquistando o direito de decidir em casa e enfrentar o pior adversário classificado para o famoso mata-mata. Venceu o primeiro jogo, na Colômbia, por 1 x 2. No segundo jogo, 0 x 2 para o Once Caldas. Poderia ter sido mais.
Eduardo Polla cunhou a expressão Miercoledazzo, algo como “a grande quarta-feira”, referindo-se ao Maracanazo, a derrota da Copa de 50. Eu diria que foram pequenos Maracanazos, diluidos em vários jogos. Pequeno também por ter acontecido num momento distante do desfecho final. A derrota do Cruzeiro para o Estudiantes na final de 2009 foi certamente mais dura, e até bem parecida com a fatídica derrota do Brasil para o Uruguai, dois a um para o visitante e de virada. Esse ano o time prometia mais e o torcedor sofreu menos com a derrota.
Concluí que não há nem haverá momento mais propício para a publicação de um texto comemorativo, na gaveta desde 2009, esperando a ocasião certa para brilhar. Por um motivo muito claro. Esse time o merece, não morreu na praia. E nunca morrerá.
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Minas Gerais não tem mar
O esclarecimento das coisas é um perigo para a beleza das palavras. E onde há gente, há luz. De tanto se falar dois versos de Fernando Pessoa, como se fossem o que de mais óbvio há nesse mundo, as palavras perderam seu devido brilho. “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Sabe-se mesmo de onde isso provém? (Sem recriminação) Uma em cada dez pessoas que as distribui talvez saiba o título do poema. E esse não é um dos casos mais graves. Como bem nos lembrou Popst, a frase de Shakespeare que brota até mesmo da boca de um cavalo, diante do inexplicável, hora alguma classifica a nossa filosofia de vã.
Se alguém reclama da falta de mar no interior, é porque nunca se deu conta que o céu estrelado dos lugares não banhados pelo oceano costuma ser infinitamente mais belo, pleno e brilhante. O esclarecimento das coisas também é um perigo para a beleza de um céu estrelado.
É certo que há lugares onde não há mar nem céu estrelado. Também existem aqueles onde há mar e um céu repleto de estrelas. Mas esses últimos são exceções, que existirão cada vez menos. Prefiro falar aqui de outra exceção, mais persistente.
Desde pequeno conheço cinco estrelas que sustentam seu brilho mesmo sob forte presença de luz. Arrisco dizer que diante do perigo essas estrelas brilham ainda mais. Pode-se ascender dezenas desses refletores de estádio que a beleza delas não diminui. Ao contrário, aumenta. Alguém diria que é por conta da forte consistência do azul celeste que as abriga. Tenho minhas dúvidas. Tanta perseverança assim diante do perigo só foi vista uma vez, nas grandes navegações. Quem compara as viagens espaciais a esse feito se engana profundamente. Hoje, o viajante, antes de viajar, já conhece a composição química da matéria que sujará sua bota. Antes, não.
Levando em conta uma das falas mais verdadeiras que já apareceu por aqui, que o futebol é uma caixinha de surpresas, hão de concordar comigo que a bravura das cinco estrelas brilhando mesmo diante de toda a luz do mundo é a mesma dos navegantes. Até porque os imigrantes italianos não vieram de avião para o Brasil. Minas Gerais não tem mar. Ainda bem. Só assim um reflexo dele pôde permanecer por lá. Não vos pareceu que os grandes títulos foram disputados em um pedaço de terra cercado por água?
Se a cor é azul celeste ou azul marinho, pouco importa. Sei que por conta desse azul, há cinco estrelas que, juntas, jamais foram vencidas, não obstante tão combatidas, como diz o hino em sua homenagem. E outro hino confirma: sua imagem ainda resplandece.
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Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu
Fernando Pessoa
Trecho retirado do poema Mar português.


Que bonito, Bernardo.
[...] que caracteriza o futebol, não houve torneio mais futebolístico que essa Copa América. Talvez a Libertadores desse ano. A diferença é que no torneio entre clubes os adversários mais fracos jogaram melhor que os mais [...]