Segundo Aristóteles a poesia é algo mais sério que a história. Justo pelo seguinte: a história diz as coisas que aconteceram e a poesia aquelas que poderiam acontecer. E mais: a poesia pode, inclusive, pautar-se em fatos ocorridos. Não deixará, por isso, de ser poesia. O filme The Damned United, que conta a história de Brian Clough, treinador inglês, não é um relato histórico.
Tenho dois pés atrás com filmes biográficos. Em geral preocupam-se em contar a história de uma personalidade através dos momentos marcantes de sua vida. São, noutras palavras, os melhores momentos do jogo. Nascimento, dificuldades na infância, adolescência, etc… Sucesso, crise, sucesso, crise; depende de cada caso. Termina com a morte. Ou começa com ela, não importa. De qualquer forma, é história.
Seria o caso de metrificar os relatos de Heródoto; nem por isso deixariam de ser, com ou sem metro, algum tipo de história (Aristóteles, Poética).
O maior mérito do filme não é seu desapego à linearidade do tempo ao narrar os acontecimentos da vida do treinador. Gostei de seu desapego aos melhores momentos. Por exemplo: jogo decisivo, clássico, envolvendo vingança. Na verdade, é quando o time de Clough vence seu rival (até pouco tempo infinitamente superior) pela primeira vez. O filme não mostra o jogo, não mostra os lances da partida. Noutros casos até exibe as imagens reais, os gols, etc. Mas nesse caso, importantíssimo, não há uma cena sequer de futebol. Não mostra o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.
Clough não assistiu ao jogo. Enfurnou-se num quarto do estádio. Não viu, imaginou o jogo. Os cantos da torcida, gritos de gol, xingamentos, desenhavam campos de possibilidades em sua cabeça, sem que nenhum deles encerrasse o fluxo imaginário do treinador. E do espectador. Soube o resultado da partida, 2 x 0, pelo sorriso de seu auxiliar técnico no fim do corredor do vestiário, depois do jogo.
O filme também não conta a fase mais impressionante de Clough: sete títulos pelo modesto Nottingham Forest, incluindo duas Champions League. A película termina quando essa fase brilhante do treinador se inicia. E não fica devendo por isso. Pelo contrário. No pouco que conta realiza o que mais importa: manter mantém viva a possibilidade de feitos impressionantes acontecerem, tanto ontem como sempre.

