Suécia não é o país do futebol. Mas, por acaso, o primeiro monumento com o qual me deparei – ou primeiro que reparei – foi uma escultura que descrevi assim: um homem chutando uma bola com o pé direito. Outra com o pé esquerdo, de calcanhar, cabeceando uma terceira. Tudo ao mesmo tempo. Mais ao lado, uma trave de ferro polido, quiçá do tamanho real, com uma bola encaixada lá, no ângulo direito de quem chuta. A expressão para brasileiros é quase imediata: lá, onde a coruja dorme.
Se um jogador do nosso time faz um gol acertando essa parte da baliza, ou se nosso time sofre um gol assim, podemos usar a expressão para comentar o lance. Até mesmo no caso de explicação de gols de terceiros. Mas quando ela nos alcança durante a contemplação de uma escultura, numa cidade europeia, à noite, e com temperatura abaixo de zero, é natural refletir sobre a expressão. Hegel bem disse: a ave de Minerva alça voo quando o dia chega ao seu fim.
Penso que a expressão se refere a lugares pouco frequentados pela bola. Lá pode-se até dormir a tranquilamente. Há pouca perturbação, pouco reboliço. A Suécia é um pouco assim, imagino. Já que sua capital, Estocolmo, é. Cheguei do aeroporto na estação central da cidade às oito e meia da noite e gastei algum tempo para achar um estabelecimento aberto em busca de informação. Uma semana de albergue e não esbarrei com um brasileiro sequer. Exemplar também é o volume da música no estabelecimento. Alta o suficiente para se ouvir, baixa o suficiente para se conversar.
Pouco reboliço também em termos futebolístico. O campeonato aqui anda parado. Não funciona no inverno. Mas isso não quer dizer que o blog hibernará. Se aqui é o lugar onde a coruja dorme, é aqui também que ela acorda. E quando algo acontece, nesse lugar da trave, geralmente merece admiração. Qual a estátua do homem chutando três ou quatro bolas, fazendo o possível e o impossível, tudo ao mesmo tempo, num só instante.


“Donde la araña caga” en español.