Eu, garoto desprivilegiado, criado na periferia de uma cidade do nordeste. De acordo com a geografia oficial, Espírito Santo não é nordeste. E economicamente tem mostrado-se cada vez mais distante de seus pseudo conterrâneos. Mas em termos futebolísticos o estado é deveras mais árido que o nordeste.
Sobrevivi assistindo a jogos como Serra versus Jaguaré, Vitória contra Vilavelhense. Sequer peguei a fase de decadência de Rio Branco e Desportiva Ferroviária. Quando dei por mim, ambos já estavam no limbo do futebol nacional.
Parecendo uma espécie de programa paleativo do governo federal, alguns times grandes do Brasil excurcionavam por lá. Tive o então privilégio de ver Flamengo contra Vitória da Bahia. O Flamengo, imaginem só. E com o melhor ataque do mundo: Sávio, Romário e Edmundo. Gente entrando pelo ladrão. Lembro-me de ter entregado o ingresso e passado por cima de uma grade (que sufoco, não foi, Agnaldo?). Fim de jogo: um a zero para o Viória, que deve ter se sentido em casa. Primeira lembrança de sentimento de prazer pela derrota e infelicidade alheia; agora me dou conta que o espírito de Juliana circula até mesmo nos mais jovens.
Esse certamente não veio de um programa do governo. Deve ter vindo dos céus. Vi meu time de coração jogar contra o Flamengo, no estádio do Rio Branco. Ataque formado por Paulinho Mclaren e Marcelo Ramos. Salvo engano, um gol de cada. Dois a zero para o Cruzeiro, com direiro a trilha sonora da torcida máfia azul.
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Eu, rapaz privilegiado, morando numa das cidades mais caras da Europa, num apartamento só para mim. Pago com dinheiro da bolsa de estudos fornecida pelo governo federal, aquele mesmo que parecia suprir minha carência futebolística do passado.
Mas em Estocolmo não tem futebol de primeiro mundo. No inverno, nem de terceiro. Mas Estocolmo fica na Europa e nela tem futebol de primeiro mundo. Como se eu viajasse de Vitória para Natal, só que pagando mais barato, é possível ir à Barcelona e assistir, por exemplo, o clássico espanhol.
Para tanto, basta pegar o metrô na estação Näckrosen, que fica a cerca de trezentos metros da minha casa, em direção à T-Centralen. Lá é preciso pegar um trem cujo destino final é Märsta. Na estação Upplands Väsby troca-se de trem para chegar ao aeroporto. É preciso, inclusive, que o trem cujo horário lhe faria chegar com alguma tranquilidade no aeroporto seja cancelado. E que o seguinte demore cerca de trinta minutos para passar: tempo suficiente para colocar em risco seu voo para a Espanha. Assim, basta sair da estação procurando o centro deste lugar por demais periférico, em busca de um táxi. Pergunte ao gari sueco por um cab. Se for necessário, diga táxi. Encontrado o veículo, por segurança pergunte em torno de quanto fica o valor. Mas não se preocupe, o taxista turco faz exatamente o trajeto mais curto e chega ao aeroporto em quinze minutos: o trem não teria passado na estação ainda. Faça o check-in numa máquina, com alguma tranquilidade, e embarque no voo. Durante a viagem talvez seja necessário pedir um vinho com azeitonas para relaxar. Descanse um pouco.
A chegada em Barcelona pode ser às 19h, já que o jogo é as 22h. No aeroporto, pegue o ônibus 56, em direção à Plaza España. Sim, perca o ônibus por questão de segundos. O próximo deve ser vinte minutos depois, às 19h45. Não preocupe: Plaza España é o último ponto, e estará nele em cerca de 30 minutos. Chegando na praça pegue o metrô, que não é tão simples como de costume. Ande algumas estações na linha vermelha e na estação Plaza Sens troque para a linha azul, direção Cornella. Salte em Badal, se perca um pouco para saber o lado certo para caminhar em direção à rua do albergue. Algumas perguntas, tentativas que contrariam as respostas e pronto. Aí está: Hostel One Sants. Toque a campainha. Nano, argentino que vive em Barcelona há dois anos, hei de atendê-lo com a melhor cara do mundo, dar a chave do quarto e uma toalha de brinde (um banho por ser necessário por conta de algumas corridas). Pergunte pelo ingresso que você comprou pela internet, pediu para entregar no albergue e confiou plenamente naqueles que o receberiam e guardariam. Pronto, envelope em mãos, lacrado, com o ingresso dentro.
Aí é só fazer uma amizade relâmpago com dois argentinos que vão ao jogo. Caminhe cerca de dois quarteirões e aviste o Camp Nou, de longe. Mesmo que seu bilhete seja na arquibancada norte, entre ali mesmo e dê a volta por dentro do estádio, como lhe recomendará alguém no albergue. Portão 83. Entre. E verás que está muito mais perto do campo que imaginava. Sim, o Barcelona existe. Ainda está um pouco longe, do outro lado do campo. Porém mais perto do que nunca.


É na Europa certamente tanto o futebol quanto a economia são privilegiados, privilegiando a quem mora lá.
Já aqui no Espirito Santo a economia pode até estar em crescimento mas ainda não vemos os seus reflexos nas demais áreas de base, assim como no nosso desprivilegiado futebol. A realidade que nos cerca mostra disparidades. Será que poderemos mudar este quadro?