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Archive for janeiro \31\UTC 2009

A trave

O tolo tende a dizer que o futebol imita a vida. Tolice digna de um domingo na TV. O leitor deste blog, pessoa esclarecida, sabe bem que a vida copiou descaradamente o futebol.

O maior exemplo é a bola na trave.

Quando o homem inventou o futebol definiu que o sucesso estaria embaixo dos chamados três paus e todo o resto do universo, possível de ser atingido por um chute, foi definido como fracasso.

Calculem! Calculem a área de um gol e depois calculem todo o resto da criação. Sim, é constatado matematicamente que o sucesso é um possibilidade ínfima diante do fracasso. O grito de gol, maior abstração da felicidade, é palavra para boca de poucos.

Mas justamente por ser fácil errar, o fracasso não dói tanto. Se o gol é tão singular, chutar pra fora é quase aceitável. Afinal, o clichê canta que errar é humano.

Mas infeliz daquele que pensa que a vida é uma simples dicotomia.

Não, leitor! Nada disso… Cruelmente, existe a bola na trave.

Deus vem pra bater a falta pertinho da meia lua e bang! A bola beija a trave! Ela: A trave, fronteira entre o sucesso e o fracasso. Limite metálico que nos faz sentir o gosto da felicidade antes de nos mergulhar na profunda depressão.

A bola na trave é um deboche do destino. É uma garota que vem na sua direção, se aproxima dos seus lábios, faz você fechar os olhos e te beija no rosto.

Trigonometricamente, a diferença entre um chute que morre no ângulo e aquele que bate na trave é quase desprezível. Mas não se iludam! Desprezível mesmo é a bola amarga que te trai com a trave. Bola mal-amada que zomba de nós com seu capricho. bolas chutadas pra fora não ecoam na mente dos derrotados! Mas as bolas na baliza sempre geram angustiantes pensamentos do tipo “Se aquela bola entra…”, Mas a verdade é que nunca entraria. Aquela bola estava destinada a jamais entrar no gol, só que a vingativa pelota, talvez corroída pelo remorso em saber que nunca faria parte da história, resolveu rir das nossas caras.

Bola na trave!
Mãos na cabeça!
E pés,
como nunca antes,
presos ao chão.

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Gui-gol ou Gui-gordo?

Receoso com a possível saída do atacante Guilherme do Cruzeiro, procurei, como de costume, notícias tão atuais quanto as de ontem o eram. Não encontrei, as notícias de hoje são as mesmas de ontem, sem a devida função e valor que tiveram outrora.

Insatisfeito, resolvi gastar meu tempo bisbilhotando, no divertidíssimo “site de relacionamentos” que todos conhecemos, a opinião dos torcedores a respeito da saída do atacante, que durante o ano passado dividiu a torcida cruzeirense entre admiradores e críticos ferrenhos de seu futebol.

Logo me deparei com um carinhoso apelido, que antes não se via, “Guigol”, e num piscar de olhos concluí: claro, na iminência de perdê-lo, aqueles que o maldiziam trocaram de lado. Um discurso sobre o ser humano brotou em minha cabeça: ” — ingrato, só valoriza o que lhe faz bem na iminência da perda, só valoriza as possibilidades da vida na proximidade de sua impossibilidade, da morte, o sol nos dias de chuva e a chuva nos dias de sol”.

Grande engano. Alguns minutos de atenção e constatei que muitos querem a saída do jogador. E mais: estão felizes com a possível vinda do atacante Kléber que jogou pelo Palmeiras, envolvido na suposta negociação do Guilherme com o Dínamo de Kiev. Chamam o atacante do Cruzeiro de “Guigordo”, de lento e preguiçoso, dizem que só joga quando quer e que lhe falta raça, amor e respeito pelo clube que o revelou; ao passo que elogiam o Kléber por sua vontade e dedicação durante as partidas.

É impressionante como somos capazes de confundir as coisas. A dedicação e vontade, quando incorporadas em lances dignos de suspensão por todo o ano, são extremamente prejudiciais ao clube e representam uma falta de respeito por este, seja ele o Cruzeiro, o Palmeiras ou o Dínamo de Kiev. A preguiça, a lentidão, a falta de raça e amor ao time, do Guilherme, sempre me soaram antes como amor a seu particular estilo de jogo, a raça de suportá-lo diante das críticas,  e conseqüente respeito pelo time que for.

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“Lá e Cá” convida – Carlos Drummond

Do trabalho de viver

Decerto estou sonhando. Sonhos de abril, cara a cara com a manhã pura que o Escritório de Metereologia está me oferecendo de graça, e que eu, pondo de lado grandes assuntos do momento, vou explorando na certeza de que faço algum bem a meus leitores se convencê-los a faltar hoje a certa obrigação tediosa que lhes deu a café um gosto de mau humor. Porque eu já cumpri a minha, batendo estas mal traçadas. O resto fica por conta da imaginação de cada um. Só vejo hoje no Brasil um homem com orbigação de exigir velocidade aos outros. Chama-se Zagalo, e não o invejo. E já estou pensando em um futebol lento, imóvel, em que os jogadores de ambos os times se sentem no chão para assistir à lenta germinação de uma folhinha de grama: o verde da vida.

Carlos Drummon de Andrade, Quando é dia de futebol.

Este é o nosso convidado de agora. Assim procederemos quando não tivermos algo para dizer. Nos pouparemos, em parte, de uma obrigação tediosa e da velocidade que Zagalo uma vez exigiu dos brasileiros.

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Juízo sobre juízo de juízes

O homem é um animal racional. Com alguma razão, erramos na tradução dessa frase. Pelo menos no lugar de “animal” deveria estar “vivente” ou “ser vivo”. Mas, está certo, uma vez que errar é humano; duas vezes, o mesmo erro, que nos enquadra na família dos burros. As recorrentes pisadas na mesma bola atestam uma das mais perspicazes definições do ser vivo racional: “um quadrúpede bípede”.

No campeonato brasileiro de 2004 vi um árbitro admitir seu erro. Para se justificar, proferiu o seguinte juízo: “- Não sou uma máquina, cometo erros como qualquer outro ser humano”. Sensibilizado, acatei a justificativa. Pareceu-me incontornável e bastante sensata, como se estivéssemos exigindo deles algo que ultrapassa suas e nossas forças. Quase tive pena de nós. Se não me engano, ouvi a mesma pessoa reivindicar um recurso eletrônico para implicar com os erros dos jogadores, igual àquele que implica com os dos árbitros nos lances de impedimento.

Neste último brasileirão, outro árbitro se justificou através do reincidente erro humano, que foi, sem dúvida, mais aceitável que o de cinco anos atrás. Desta vez não me sensibilizei. Tamanha frieza só mesmo por conta do meu time estar na briga pelo título; e tamanha sensibilidade só mesmo por conta do árbitro anterior, salvo engano, torcer pro meu time. Nem tanto. Se fosse isso, por trás da indiferença jazeria uma segura convicção de má fé do juiz, que de mãos dadas com todo o universo conspirara contra o título de um time forasteiro, não pertencente ao eixo São-Paulo. A justificativa do árbitro não funcionou e sequer teve efeito contrário, não coloquei em xeque a boa intenção dele. Acreditem, não estou em condições de avaliar moralmente a conduta do próximo. Apenas constatei que o juízo é traiçoeiro: pode afirmar o que tenta com veemência negar; corre o risco de dar de cara com o motor da fuga, como as vítimas nos filmes do Jason. Aconteceu também com Édipo.

Um amigo recebeu do caixa eletrônico mais dinheiro que pediu. Conferiu o extrato e assegurou-se que o montante à mais não havia sido descontado.  Tenho quase certeza que ele hora alguma desconfiou da máquina, como se dela emanasse algum tipo de teste de moralidade. Sequer imaginou que se tratava de um gesto visando a uma melhor distribuição de renda em nosso país desigual. A máquina errou: ponto final. E esse não é o ponto quando um erro humano acontece, sobram vírgulas, interrogações, exclamações,  reticências. Suspeitas e bandeiras são levantadas, motivos admiráveis ou repulsivos criados, a discussão inicia e dificilmente sossega.

No mesmo ano de 2004, um outro profissional da arbitragem deixou bastante claro para todos que não era uma máquina. Confessou diversas tentativas de manipulação de resultados envolvendo um site de apostas. E ainda hoje há quem suspeite de sua confissão, como se tivesse sido armada para realizar outra vez jogos supostamente manipulados.

Realmente: não somos máquinas, porque travestidos de simples erros podem estar intenções que só os padres de antigamente seriam capazes de saber; ou não (às vezes um erro é, de fato, só um erro), o que complica tudo. Pois, julgar é tarefa complicadíssima, apesar de tão praticada por esse ser vivo racional que somos. E esses árbitros, com suas contraditórias justificativas, exigindo de nós todos posturas sobre-humanas. Atitude mais controversa que essa só mesmo a do povo, que maldiz a mãe do juiz, logo ela, a única que alguma vez, de coração, lhe exigiu juízo.

***

Devo dizer que acho bastante curioso o fato de, nos dias de hoje, ainda não constar um jogo eletrônico de futebol onde se possa controlar a arbitragem. A comissão nacional de árbitros deveria se mobilizar para exigir essa opção. Imaginem: apitar o jogo daquele amigo que nos vencia e arrasava ininterruptamente sem qualquer compaixão, quase como uma máquina! Que grande oportunidade para julgarmos e julgarem nosso caráter! Na pior das hipóteses, podemos jogar a culpa no controle, que não se comportou como deveria, e arremessá-lo contra a parede; assim não restará dúvidas sobre o que de fato não estava funcionando bem. Ou surtirá o efeito contrário: duvidarão para sempre de nosso caráter.

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