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Archive for junho \28\UTC 2009

Parece mas não é

Em meados da década de setenta, eles contrataram Pelé e Beckenbauer para fomentar o esporte no país. Nada que evitasse o descaso de boa parte dos cidadãos ao sediar maior evento esportivo do planeta, quase vinte anos depois. Consideráveis exibições de seu escrete na Copa não animaram os estadunidenses; o futebol não emplacou no país livre, como só o chamam seus filhos.

Têm uma boa seleção feminina de futebol. Não por isso. A masculina não é ruim. Fraca é a paixão do americano (com o perdão da palavra) pelo soccer, que no resto do mundo movimenta multidões. Há quem diga que a causa do descaso tem nome: a incontornável baixa pontuação final de uma partida. No basquete, baseball, hockey e futebol americano os placares esbanjam números, quando uma partida de futebol consegue terminar como veio ao mundo. Um zero a zero para nós pode ser frustrante, para eles… contemplar qualquer coisa, menos um esporte.

A explicação, rápida e rasteira, não é ruim. Mas prefiro acreditar que no país hospedeiro da liberdade e sua estátua não há espaço para coisa tão parecida. É dito que no futebol nem sempre o mais forte vence. Num confronto, as chances são mais bem distribuídas, como nos Estados Unidos, um lugar de ampla oportunidade, cujo lema permite que um desconhecido lutador de boxe torne-se o símbolo da vitória conquistada com raça e de virada. Impressão minha ou a conquista do Liverpool sobre Milan em 2005 espelhou todas as vitórias contadas no cinema americano? Muitos hão de admitir que naquela decisão o futebol manifestou-se em sua completude. E grande parte dos estadunidenses acredita piamente na trajetória de Rocky Balboa.

Mas, vingasse o soccer e se tornasse ele uma das paixões nacionais, perceberiam que a vitória dos mais fracos é deveras imprevisível, que o lema alimentado pelo cinema é tão artificial quanto uma partida de futebol se reproduzida na sétima arte, aos olhos de quem é apaixonado pelo jogo. A vitória sobre a Espanha ensinou-os o que já sabiam; e a derrota para o Brasil há de mostrar que deve-se desconfiar de uma liberdade convertida em regra. Agora, uma vitória estadunidense e confirmada estará, mais uma vez, a liberdade para os yankees. Acompanhados da atual frase da nação “- Yes, we can!” permanecerão sem entender que o futebol é um esporte de contato, sobretudo metafísico.

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Ele está de passagem pelo Brasil. Ingrato seria não convidá-lo. Aliás, gratidão é o tema do video. Com um pouco de paciência, verão que se trata de um gênio. E, para os que não veem, passo a bola ao outro convidado, com o intuito de virar o jogo. No título apresento o nome do Alex e omito o do Armando Nogueira para salientar que um camisa dez sempre tem prioridade para mim, apesar de tão preterido no futebol mundial, ultimamente. Além disso, o que escreve com as mãos já é praticamente de casa.

O ano dourado de Alex

Está terminando o ano de todas as folhinhas, inclusive, o do futebol. Não há como deixar de recordar momentos inesquecíveis de um craque que, acima de todos, marcou o campeonato com a excelência de seu prodigioso futebol. Falo de Alex. Revolvo o baú de meus escritos, com a fervorosa intenção de selecionar textos nos quais exaltava cada partida de Alex. Ninguém, nem aqui, nem na Europa, nem na Conchinchina, ninguém, repito, exprimiu tão bem as delícias do futebol quanto esse sereno jogador cuja perna esquerda nasceu com o dom de fazer poesia com uma bola.

No começo da temporada, eu escrevia:

Duvido que haja, em todo o Brasil – suponho que em todo o mundo – alguém jogando o futebol portentoso que anda jogando o Alex. Ele tem, hoje, domínio completo do que vai pelo campo. A percepção do jogo é esférica, total. O discernimento é fulminante. Num relance, Alex pressente, delibera e executa. Se na música existe o maestro de ouvido absoluto, no futebol, há de existir o olhar absoluto. Quando os outros ainda não viram nada, Alex já viu tudo: a bola, o adversário, o companheiro. Se não é antevisão, há de ser presságio…

Prodígios e melancolia

O toque de bola de Alex é sempre revestido de simplicidade e elegância. Só conheço outro meia de armação, assim tão rico de atributos técnicos e mentais que é o francês Zidane, do Real Madri. Além de um grande esmero, os dois se distingüem por uma virtude raríssima, mesmo nos grandes craques, que é a instantaneidade com que executam um passe. A bola mal chega, já saiu do pé, levemente tocada adiante, com rara precisão. Alex é um padrão de sobriedade. Jamais afeta um gesto. Seu futebol nada tem de efusivo. Ao contrário, ele atravessa uma partida, jogando com extrema sobriedade. Faz prodígios, mas, sempre com um traço de melancolia que, certamente, provém das três raças tristes de que é feito o povo brasileiro.

Um verso no pé

É cada vez mais requintado o estilo de jogo de Alex, do Cruzeiro. Ele tem com a bola uma relação do mais fino trato. É um criador de trajetórias; inventor de gestos lúdicos. O passe dele é um verso. Aliás, quem vive cobrando mais constância de Alex ainda não parou pra pensar numa coisa: Alex é um legítimo poeta do jogo e, como tal, depende de sopros de um espírito misterioso. Ninguém é poeta 24 horas por dia.

A propósito, é de uma poeta, Adélia do Prado, o seguinte desabafo: “De vez em quando, Deus me tira a poesia: olho pedra, vejo pedra mesmo.” Pois com Alex dá-se o mesmo: de vez em quando, ele sai do ar, pra reaparecer, mais adiante, com um verso no peito do pé.

O gênio do comedimento

É comum a gente ouvir alguém dizer, depois de um jogo do Cruzeiro: Alex não jogou tudo que sabe. Contra o Santos e contra o Corinthians, também, ouvi a mesma sentença. Em cada partida do Cruzeiro, Alex faz duas ou três jogadas simplesmente fabulosas, com fulminante rapidez e extrema simplicidade. Será que isso não basta? Poucos reconhecem que Alex é o que se pode chamar um “gênio de comedimento”.

Alex: lâminas afiadas

Alex, é diferente: a bola é que tenta estar sempre no lugar em que ele quer que ela esteja. Se ele se omite, é pro bem da bola e da equipe. Aliás, o verbo justo não é omitir-se, que Alex não se esconde jamais. Alex transfigura-se. Mimetiza-se. Está em campo e não está. É esquivo, fugidio, intermitente. Sempre houve figuras assim, no futebol. Ipojucan, no Vasco, era assim: de repente, todos o perdiam de vista, menos a bola. Didi também tinha muito de camaleão; ele sumia do jogo. Transmudava-se. Virava grama. O público sentia falta dele, a equipe, não. Jogar sem a bola é exercitar a virtude do desprendimento. Alex joga sem a bola. Finge aceitar a marcação. Quando o sanguessuga menos espera, ele ressurge, chuteiras refulgentes como lâminas afiadas.

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Na eminência do nada a dizer, a placa salvadora é levantada: no blog saem momentaneamente (não se animem) os textos de Alex Popst e entra um do mestre Armando Nogueira. A arquibancada agradece aos deuses pela feliz substituição.

Pelada de Subúrbio

Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos. A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória. Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro. Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara. A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola. No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

P.S.: Este blogueiro registra nesse post sua admiração ao Botafogo por ter inaugurado sua novíssima sala de impresa com o nome do magnifico Armando Nogueira. Parabéns!

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beckhan-real-madrid

Recebi repleto de alegria a notícia de que Florentino Pérez voltou a presidencia do Real Madrid .

Não que eu seja Madrinista, mas a passagem anterior do presidente merengue faz com que eu lembre de uma época mágica, em que os maiores craques de cada posição foram contratados quase como num devaneio.

Claro que sempre se poderá argumentar que os resultados não foram satisfatórios. Mas a beleza daquele futebol era exatamente essa. Insisto, caro leitor! Não sou torcedor do Madrid! Não tenho compromisso com a sala de troféus da equipe da capital espanhola, naquela época o fascino vinha todo das belas jogadas, dos passes de primeira, dos sorrisos cúmplices entre Ronaldo e Roberto Carlos e dos inesquecíveis roulette marseille. Os jogadores se divertiam no Bernabéu, como eu não me divertiria também?

Li, alguns anos atrás, o livro White Angels do jornalista inglês John Carlin. Entre tantas passagens interessantes, temos uma entrevista com, claro, Florentino Pérez e uma das constatações do presidente madrinista é de que o Real Madrid tornou o futebol tão mágico que chegaria o dia que as traves não seriam necessárias. O espetáculo estaria além da vitória, além até do próprio jogo. O resultado é efêmero, mas a arte é eterna.

Nenhuma contratação até agora (além do treinador chileno Manuel Pellegrini), mas uma coisa é certa: os Anjos Brancos voltaram.

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