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Archive for agosto \30\UTC 2009

Incapacidade

Contemplar um jogo de futebol in loco e não escrever tornou-se um contrassenso, como deixar de fotografar momentos esquecíveis. Pela primeira vez no Engenhão e muita coisa para dizer. Eis o problema, justamente, muita coisa para dizer. Nenhuma delas foi capaz de guiar ou dispensar a outras.

Sobre o jogo, destaco a incapacidade. Do Botafogo, por fazer só um gol no primeiro tempo. Do Cruzeiro, por não virar o jogo diante de um Botafogo com dez em campo. Sobre o estádio, destaco sua beleza, irresponsável pela dificuldade de contemplar a beleza de uma partida de futebol. Superou o Maracanã em termos de distância. Se Nelson Rodrigues se impressionava com o abismo entre nós o campo no estádio que traz o nome de seu irmão, uma visita ao estádio do Botafogo e seu público de sete mil pagantes renderia uma bela crônica. Desta vez, não me senti capaz de imitá-lo.

Incapazes também três torcedores-mirins do Botafogo, que não compreenderam o apaixonado elogio à camisa alvinegra proferido por um senhor botafoguense. E o livro que levei para ler no trem, talvez no jogo, não atendeu às espectativas, por um lado. Por outro, superou-as. O texto do autor não me agradou, mas sua compilação de crônicas sobre futebol reunidas nos apêndices decidiu nosso convidado de terça-feira. Adianto: gira em torno da capacidade de um craque, naquela época, voltado para sua carreira futebolística, apesar de imerso num sonho, que hoje se realiza às quartas e sábados.

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Houve um tempo em que desgostei de futebol. O desempenho do Cruzeiro não atravessava meus pensamentos, não desencadeava dor ou prazer. Não havia mais frio na barriga quando o Fantástico exibia os gols da rodada. Não mais aquele estado extremo de atenção…  Estaria a bola em bons pés na cena seguinte?! O futebol era, naquela época, o ópio do povo, um dos grandes responsáveis pela alienação das massas, um tremendo empecilio para a liberdade humana. E, no caso, para a minha. (mais…)

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Terra à vista

“Aqui, podemos dizer, estamos em casa e podemos, como o navegante após longo périplo por mar proceloso, exclamar ‘terra’!”, diria um cruzeirense hegeliano. Enfim, uma apresentação concisa, titubeante, adversa, reacionária, convicta, do Cruzeiro. Dois a um sobre o Flamengo, de virada, e no Maracanã.

E estou convicto: o estádio de futebol borbulha histórias. Um garoto de nove anos ofendendo os adultos em seu entorno. Foi pelo teor, e não pelo alvo, de seus xingamentos. Um senhor, reclamando da arbitargem, como se por trás dela houvesse um imenso esquema gaúcho-paulista armado para prejudicar o Flamengo, um time do Rio. Nesse momento, a máscara de minhas acusações sobre o eixo do mal, o Rio-São Paulo, cai. Existem também as pessoas caladas. Para mim, as que entendem o futebol. E teve jogo, um bom jogo.

O primeiro tempo virou um a zero para o Flamengo, apesar do bom início do Cruzeiro. Kléber desperdiçou grande oportunidade, num momento-chave da partida, que, consumado o gol do Flamengo, trouxe um passado recente à tona, um gol perdido em La Plata. O time do Cruzeiro, e a torcida, ainda arrastam a perda de um título grandioso. O time está mais pesado que outrora. Na verdade, o mundo anda mais pesado.

Hoje um pouco menos. Pareceu, sim, um início de desprendimento, coisa que a vitória por três a um sobre o Curitiba, no Couto Pereira, não despertou. Independe da qualidade do time do Flamengo, vencê-lo no Maracanã, de virada, não é feito de um time que lamenta o passado. Foi bom, quero dizer, foi ótimo, foi como avistar terra no longínquo horizonte. Quem sabe ano que vem não não fincamos o pé nela e jogamos com a sustância que o torcedor espera?

Sustância que o torcedor rubro-negro esperou de seu time, ontem. Como ela não se efetivou, vaias, que por um motivo inusitado, se concentraram no goleiro Bruno. Tenho certeza: não foi por conta dos dois gols sofridos. O arqueiro, indignado com as vaias ao time, chamou-as para si demorando para bater o tiro de meta quanto mais a torcida expelia reclamações. O Bruno retrucava, com cada segundo passado, a indignação do torcedor. Conseguem imaginar isto? Pois eu vi, o homem desafiou a torcida de um jeito impressionante. Culminou, claro, num grito que os torcedores tradicionalmente usam para xingar um juiz.

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Estabelecemos, com esse convidado de peso, as terças-feiras como dia de receber visitas?

Goleada em Assunção

Ontem, vencemos, mais uma vez, em Assunção. Desta feita, ampliamos o marcador: – 5 x 2! Um amigo meu, que, pendurado num rádio de pilha, ouvia a irradiação, não se conteve. Quando Hilton enfiou o tiro de misericórdia, ele bufou: – “5 x 2 é troço pra chuchu!” E era. Acresce que vencer em Assunção é uma calamidade. Lá, a torcida costuma abrir uma faixa, com o seguinte dilema: – “Vencer ou morrer!” Ao esbarrar nessa legenda ferocíssima, o quadro visitante treme nos seus alicerces. No Maracanã, há um fosso cordial, que protege, que encouraça, que torna inexpugnáveis os 22 jogadores, os bandeirinhas e o juiz. No Paraguai, não. Ninguém é intangível: – todos são suscetíveis, em caso de invasão, de um minucioso linchamento. A hipótese de massacre, que ronda a equipe de fora, pode liquidar-lhe o ímpeto, a gana, a garra. Pois bem: – apesar disso, o escrete levou tudo de roldão, tudo, e obteve duas vitórias monumentais, sendo que a última de goleada. Mas, no feito dos nossos, há dois aspectos que convém destacar. Digo “aspectos” e já especifico: – duas lições. Vejamos a primeira: – nada como o escrete que é um clube disfarçado. Que mandamos nós a Assunção? Um América, com leves enxertos do Bangu e de São Paulo. O nome do Brasil não foi bem um nome, mas um deslavado pseudônimo do clube rubro. Logo ao primeiro jogo, verificou-se que não se podia desejar uma fórmula mais sábia e eficaz. Pela primeira vez, um escrete nascia feito, pela primeira vez um escrete rendia, na estréia, cem por cento. Seja do ponto de vista técnico e tático, seja do ponto de vista emocional, o comportamento da equipe encheu as medidas. E por quê? Eis a verdade, amigos: – o jogador, em campo, atende mais ao apelo do clube que ao da pátria. Examinemos o caso de um Ferreira, de um Canário, ou de um Edson. Ele funciona melhor como americano do que como brasileiro. Ponham-no dentro do clima natural do América e ele será um. Desloquem-no para o escrete e ele será outro. Como americano, ao lado de outros americanos, o jogador se realiza e se afirma, e alcança sua plenitude de craque. Em Assunção, os brasileiros pareciam estar em casa, porque continuavam no América. E mesmo os enxertos foram rápida e implacavelmente assimilados. Daí a compacta, indissolúvel e eufórica unidade do time. A outra lição da “Taça Oswaldo Cruz” foi, a um só tempo, de futebol e de vida. De fato, as duas vitórias ensinaram que tudo passa, menos Zizinho. O que nós chamamos idade, o que nós chamamos tempo, o que nós chamamos velhice nada mais é do que um jogo de aparências e ilusões. A idade ricocheteia por Zizinho sem atingi-lo. Em Assunção, ele se projetou aos olhos do público e dos companheiros, isento de tempo. E vamos e venhamos: – sua velhice é mil vezes mais nova, quinhentas vezes mais jovem do que a adolescência dos companheiros. Zizinho sentado, Zizinho lendo jornal ou gibi atua, influi, decide, mais que os brotinhos do futebol. Assunção veio confirmar o que se sabia, isto é, que todos os caminhos do futebol levam a Zizinho. Na hora de escalar um escrete, ele se torna nossa alucinante idéia fixa. Não conseguimos ignorá-lo, excluí-lo, pô-lo na cerca. Mesmo as pessoas que não gostam ou não entendem de futebol, que não sabem se a bola é quadrada ou não, mesmo essas pessoas conhecem Zizinho e só Zizinho. Com uma eternidade assim irritante e assim obstinada, é possível que daqui a duzentos anos ainda o convoquem para salvar a pátria.

Manchete Esportiva, 23/06/1956

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Seleção

O time do Brasil é retranqueiro? Falta-lhe variação tática e poder ofensivo diante de um adversário retraído? Carece de um terceiro atacante, um armador? Sobram volantes no meio campo? De qualquer forma, me lembra um time. Já não acho completo absurdo torcer para a seleção. (mais…)

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