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Archive for junho \15\UTC 2010

Paixão nacional

Acredito ter ouvido a história da formiga e a cigarra há pouco tempo, um ou dois anos. Pena. Fora as consequências na minha personalidade, privaram-me os detalhes oferecendo logo a moral da história. Trabalhe hoje para garantir o de amanhã. A cigarra, cantando e divertindo-se o dia inteiro, precisou recorrer à formiga numa época escassa de alimento.

Particularmente, gosto mais da história da cigarra contada por Platão. Eis a sua versão: aqueles que inventaram a música se encantaram sobremaneira com a descoberta. Tocavam, cantavam e dançavam a perder de vista. Esqueceram de dormir, de comer e beber. Obviamente, morreram. Como prêmio dos deuses, renasceram cigarra, para cantar até morrer, sucessivamente.

Hoje o brasileiro representou a história infantil. Fogos, cornetas e festas em plena terça feira à tarde. Bares cheios, escritórios vazios. Particularmente, gostaria mais que representassem a versão platônica.

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No livro Cartas a um jovem poeta, palavras de Rainer Maria Rilke: amar exige uma força e delicadeza tão grandes que todas as outras ocupações parecem um estágio preliminar.

Suspeito que o mesmo se passe com o gol de bicicleta. (mais…)

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Atletic Bilbao 11 x 200!

Algumas vezes pessoas perguntam qual a graça do futebol, ver homens correndo atrás de bola, e sempre respondo, o futebol é mais que um simples esporte, é uma língua universal.

Várias coisas me levam a gostar de futebol, lembranças de jogadores do passado, clássicos entre rivais, jogos com goleadas memoráveis, mas a atitude do Atletic Bilbao é uma das que marca todos por muito tempo.

 

O time profissional jogou contra 200 crianças em campo, o jogo serviu de homenagem para Etxeberria, ídolo do clube, que se retirou do futebol após 15 anos de carreira. Ter a presença de todas essas crianças próximas a seus ídolos, e mais, lembrando a memória de um grande jogador do passado, foi memorável, as crianças perderam por 5 x 3. Mas a vitória foi de todos que trazem boas lembranças de pessoas que já passaram e vivem na memória de muitos.

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Por conta deste escritor uruguaio, a opinião de Xabi Alonso sobre a bola da Copa foi deveras previsível: “- É diferente”, disse o atleta da seleção espanhola, patrocinada pela Adidas. Fosse a Nike a fabricante da redonda os jogadores brasileiros soltariam o verbo do mesmo jeito? É costume de Eduardo Galeano ressaltar o vencedor da disputa entre fabricantes de material esportivo na Copa do Mundo. Dele também é o texto que segue, pertinente por conta das declarações – de ódio – oferecidas à bola do mundial. Mais ainda depois das palavras  de Felipe Melo sobre o assunto.

A bola

Era de couro, cheia de estopas, a bola dos chineses. Os egípcios dos tempos dos faraós fizeram bolas de palha ou de casca de cereais, e envolveram-na em tecidos coloridos. Os gregos e os romanos usavam uma bexiga de boi, inflada e costurada. Os europeus da Idade Média e do Renascimento jogavam com uma bola oval, cheia de crina. Na América, feita de borracha, a bola pode ser saliente como em nenhum outro lugar. Contam os cronistas da corte espanhola que Hernán Cortés pôs-se a brincar com uma bola mexicana, fez com que ela voasse a grande altura, diante dos olhos esbugalhados do imperador Carlos.

A câmera de borracha, inflada através de uma bomba e coberta de couro, nasceu em meados do século passado, graças ao engenho de Charles Goodyer, um norte americano de Connecticut. E graças à habilidade de Tossolini, Valbonesi e Polo, três argentinos de Córdoba, nasceu muito depois a bola sem nó. Eles inventaram a câmara com válvula, inflada por injeção, e desde o Mundial de 38 foi possível cabecear sem machucar-se com o nó que antes amarrava a bola.

Até meados deste século, a bola foi marrom. Depois, branca. Em nossos dias, tem diferentes modelos, em preto sobre fundo branco. Agora tem uma circunferência de setenta centímetros e é revestida de poliuretano sobre espuma de polietileno. É impermeável, pesa menos de meio quilo e viaja mais rápido que a velha bola de couro, que ficava impossível nos dias chuvosos.

É chamada por muitos nomes: esfera, redonda, couro, globo, balão, projétil. No Brasil, ninguém duvida que ela é mulher. Os brasileiros chamam a bola de gorduchinha, menina, e dão a ela nomes como Maricota, Leonor ou Margarida.

Pelé beijou-a no Maracanã, quando fez seu gol de número mil, e Di Stefano construiu para ela um monumento na entrada de sua casa, uma bola de bronze com uma placa que diz: Gracias, vieja.

Ela é fiel. Na final do Mundial de 30, as duas seleções exigiram jogar com bola própria. Sábio como Salomão, o juiz decidiu que o primeiro tempo fosse disputado com a bola argentina e o segundo tempo com bola uruguaia. A argentina ganhou o primeiro tempo, e o Uruguai, o segundo. Mas a bola também tem suas veleidades, e às vezes não entra no gol porque no ar muda de opinião, e se desvia. É que ela é muito susceptível. Não suporta que a tratem a patadas, nem que batam nela por vingança. Exige que a acariciem, que a beijem, que a embalem no peito ou no pé. É orgulhosa, talvez vaidosa, e não lhe faltam motivos: ela sabe muito bem, dá alegria a muitas almas quando se eleva com graça, e que são muitas as almas que se estragam quando ela cai de mal jeito.

Texto retirado do livro: Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano, editado por L&PM.

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