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Archive for outubro \20\UTC 2010

Pelé faz 70 anos

Homenagens brotam de todos os lados por conta do septuagésimo aniversário de Pelé. Amanhã o jogador completa setenta anos. Por mim, trocaria todas elas, mais o filme “Pelé eterno”, por uma leitura pública, em rede nacional, em horário nobre, das palavras de Drummond escritas após o jogador declarar que não atuaria mais pela seleção brasileira.

Há mais de um ano tentei juntar algumas palavras e ideias para explicar minha felicidade (ou sorte) descomunal ao ler esse texto, que hoje apresento.

Letras louvando Pelé

Pelé, pelota, peleja. Bola, bolão, balaço. Pelé sai dando balõezinhos. Vai, vira, voa, vara, quem viu, quem previu? GGGGoooollll.

Menino com três corações batendo nele, mina de ouro mineira. Garoto pobre sem saber que era tão rico. Riqueza de todos, a todos doada, na ponta do pé, na junta do joelho, na porta do peito.

E dança. Bailado de ar, bola beijada, beleza. A boa bola bólide, brasil-brincando. A trave não trava, trevo de quatro, de quantas pétalas, em quantas provas, que não se contam? Mil e muitas. Mundo.

O gol de letra, de lustre, de louro. O gol de placa, implacável. O gol sem fim, nascendo natural, do nada, do nunca; se fazendo fácil na trama difícil, flóreo. Feliz. Fábula.

Na árvore de gols Pelé colhe mais um, romã rótula. No prato de gols papa mais um, receita rara. E não perde a fome? E não periga a força? E não pesa a fama?

Ama.

Ama a bola, que o ama, de mordente amor. Os dois combinam, mimam-se, ameigam-se, amigam-se. “Vem comigo”, e entram juntos na meta. Quem levou quem? Onde um termina e a outra começa, mistura fina?

Saci-pererê, saci-pelelê, só pelé, Pelé, na pelada infantil. Assim se forma um nome, curto, forte, aberto. Saci com duas pernas pulando por quatro. Nunca vi. Nem eu. Mas vi. Saci corta o ar em fatias diáfanas. Corta os atacantes os defensores, saci-bola, tatu-bola, roaz, reto, resplandece.

A arte que se tira do corpo, as belas-artes do movimento, do ritmo. Músculos, nervos, tecidos, domados, acionados. Reflexos em flor, florindo sempre. Escultura que a todo instante se modela e desfaz e refaz, diferente, fluida. Pelé, escultor de si mesmo. A esmo. Errante. Constante. Presente. Presciente. Próvido.

O sonho de todas as crianças a envolvê-lo. O sonho a continuar nos adultos, novelo, desvelo. Não é do Santos, é de todos os santos e pecadores. Sua foto leal, seu jeito legal. Um que sabe e não é prosa: a maior proeza.

Não quer tomar pileques de glória, vai para sua casa, seu povinho, seu que-fazer. Deu tanta alegria que precisa viver a sua. Chamada paz. Não pode? Pode. Não deve? Claro que deve. E nós lhe devendo tanto, ainda iríamos lhe cobrar mais uns quantos?

Mas leva a bola consigo, sem camisa amarela; só ela. Vai jogar em família, com seu clube, sua paz, seu número dez.

A bola não fica triste, a bola alegre resiste. Vai conversando com ele: Agora estamos mais livres? Vamos viver mais pra nós? A bola indaga; tem voz.

Pois é, responde Pelé. O nome rima no ar. Nome fácil de guardar. De dizer. Os sons se cruzam, se abraçam: Pelé no Maracanã.

O imenso coro ressoa. Pe-lé. Pe-lé. Pe-lé.

Até

amanhã.

Não é adeus, é até.

logo, Pelé, até.

No Maraca, na esperança, no mundo, o nome, a lembrança, a presença de Pelé.

Texto retirado do livro Quando é dia de Futebol, Editora Record.

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