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Archive for março \29\UTC 2011

Bom começo

Quando o Cruzeiro cravou o sexto gol contra o Tolima, as palavras do narrador soaram com a nitidez dos momentos aguardados: “- És una máquina!”. São quinze gols em quatro jogos. E não quaisquer jogos. Trata-se de Libertadores, um grupo temido, chamado grupo da morte.

E o Cruzeiro tem jogado como se estivesse no grupo mais fácil da competição. Um excelente começo. Mais uma vez lembro-me do dito aristotélico: um bom começo é a metade. E continuo: não é tudo. Desconfiança de mineiro? Pode ser. Nem mesmo outro placar elástico no jogo da próxima quarta, que assentaria ainda mais o temor de enfrentar La bestia negra, é capaz  de acender aquele otimismo que ninguém é capaz de apagar nos  flamenguistas.

Acontece que ontem vi Zidane jogar. O jogo: Brasil e França, quartas de final da Copa de 2006. Sabemos todos o aconteceu ali. Não, não foi a preferência de Roberto Carlos por ajeitar o meião ao invés de marcar Henry no gol que classificou a França. Foi Zidane. Ele não fez gol. Deu o passe para tanto, mas nada espetacular, um cruzamento que poderia ter sido feito, digamos, pelo Ronaldinho Gaúcho.

Ontem, vi que a vitória aconteceu com alguns segundos de jogo. Por volta dos 50 segundos do primeiro tempo, Zidane domina a bola cercado por dois marcadores brasileiros, que apertam cada vez mais a marcação. Ele gira entre os dois. Vem um terceiro, que fica para trás num corte. Difícil dizer se na jogada sobressai eficiência ou beleza. Pois um quarto jogar tenta retomar a bola. Zidane passa perna sobre ela e sai para o outro lado, tocando para seu companheiro.

Pouco depois do pontapé inicial a partida estava praticamente encerrada. Nelson Rodrigues seria mais enfático: depois daquele lance o juiz deveria dar os três sopros no apito, que encerram a partida, iniciando o espetáculo. Desses que a gente já sabe o final, mas não consegue parar de assistir.

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Não canso de ver o gol que Messi fez contra o Arsenal. É sobre isso que eu gostaria de escrever. Não sobre o gol. Nem sobre o Messi. Sobre o Barcelona. Porque no gol, o passe do Iniesta não é mero detalhe. Tampouco sua roubada de bola, que anteviu o passe de Fábregas e o interceptou.

Comum é achar que o craque só precisa antever o lance rumo ao gol. O craque também antevê para recuperar a bola. Assim, Xavi e Iniesta a recuperam sem fazer falta, não precisam ser truculentos, ganhar no corpo, ganham na antevisão.

Em um congresso sobre futebol realizado ano passado, Parreira disse que o Barcelona faz o que sempre pediu a seus times. Trocar passes, manter a posse de bola, girá-la,  procurar os espaços. É exatamente isso que o Barcelona faz! Mas de um jeito que a seleção, nem time algum, jamais fez. Wanderley Luxemburgo citou o Barcelona para se defender de críticas ao Flamengo. O jornal  A Gazeta colocou as seguintes palavras na boca do treinador: “Quero o Flamengo jogando no estilo do Barcelona”.

E eu quero escrever sobre o Barcelona com a perspicácia e simplicidade do Tostão, como fez em sua última coluna.

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Dadá Maravilha

Nessa semana, Dario José dos Santos faz aniversário. Dia 4 de março completa 65 anos. Procurei um texto do Roberto Drummond sobre o autor do gol que deu ao Atlético Mineiro o maior título de sua história. Nada que enaltecesse Dario. Nada que falasse sobre seu jeito de jogar. Talvez porque não jogasse bonito. Imagino que seus gols não tinham a plástica que inspira os escritores. Dizem até que era incapaz de fazer três embaixadinhas seguidas.

Mas foi capaz de fazer 926 gols. Em 1970, ano em que participou do grupo tricapeão do mundo, tinha uma média de gols superior à de Pelé e Tostão juntos. Sagrou-se duas vezes campeão brasileiro, sendo artilheiro  nas duas campanhas.  1971 e 1976, Atlético e Internacional.

Dario solucionou, com sua falta de técnica, jogadas e partidas truncadas. Resolveu até o problema da ausência de belas palavras sobre seu jogo lançando, vez ou outra, frases lapidares. Uma delas inspirou Carlos Drummond de Andrade. Num discurso sobre a frase, Drummond também falou, creio eu, sobre o jeito dele jogar. Desprovido da técnica abundante nos grandes ídolos da história do futebol, “Dario é antes força da natureza”.

“Falou e disse”

Confesso a minha implicância com as frases célebres. Elas nada têm de espontâneo, e se por acaso a marca da naturalidade as distinguiu, o uso corrente lhes apaga esse sinal. Converteram-se em frases feitas, de significação elástica ou nenhuma, ao capricho de quem as repete, nas aplicações menos adequadas.

Sou mesmo de opinião que a frase histórica nunca é suscitada pela situação histórica respectiva. Foi cunhada antes, visando o eventual aproveitamento, ou depois do fato, quando não custa retocar a realidade por meio da imaginação. No momento em que devemos produzir um conceito sublime ou uma palavra heróica, duvido muito que tal nos ocorra. Só 24 horas depois, senão 12 meses mais tarde, é que a sentença admirável brota em nós, como flor que se esqueceu de abrir na estação própria.

Há também a frase célebre que não foi absolutamente pronunciada nem pensada, mas que alguém atribuiu a uma personalidade qualquer, e se colocou a esta nas bibliografias. De outras, a autoria é móvel, e finalmente circulam as sem dono, que não se sabe quando foram pronunciadas, se é que o foram. Em conclusão, frase célebre, para mim, não vale o “bom dia” ou o “está chovendo”, que fazem parte de nosso cotidiano menos histórico. Poderia exemplificar o que fica dito, porém meu intuito não é desmentir nem a tradição nem a lenda, igualmente fecundas quando o editor nos propõe a feitura de um manual cívico. E pode ser que algum dia um editor maluco se lembre de fazer-me essa encomenda.

Pretendo apenas confessar que, não obstante minha alergia às frases ditas lapidares, fui invadido por algumas palavras ditas em São Paulo, que me deslumbraram. Pronunciou-as um homem simples, no campo de futebol. Refiro-me a Dario, atacante do Atlético Mineiro, também conhecido por Peito de Aço e Pluto (o segundo apelido lhe teria sido dado por Gérson). Dario é antes força da natureza do que um pensador desses que irradiam da Europa ou da América do Norte, para o universo, verdades supostamente definitivas, que não duram o tempo de uma geração. Dele se excluem qualquer intenção crítica ou filosófica. Jogou no seu time contra o Corinthians e saiu-se bem. Terminado o jogo, repórteres o cercaram, crivando-o de perguntas. Eram de tal natureza que Dario respondeu:

– Não me venha com problemáticas, pois tenho solucionáticas.

Eis aí. Dario disse mais do que disse, dizendo apenas sobre futebol. E porque não o disse com o propósito de generalizar, de emitir um alto pensamento, abrangente de questões mais complexas que as referentes à bola de couro, sua frase me parece digna de ser inscrita entre as manifestações autênticas de sabedoria. E é da maior utilidade na hora em que vivemos. Pois os problemas estão nos afogando com sua maré montante; problemas verdadeiros, falsos problemas, problemas imaginários. Como se não bastassem os primeiros, esforçamo-nos por inventar os demais, complicando a complicação no limite de nossas capacidades complicatórias. As próprias soluções que formulamos são outros tantos problemas. Não foi à toa que se deu curso ao substantivo problemática. Não figura nos velhos dicionários da língua, que só registram o adjetivo, com acepção de “incerto, que se pode sustentar negativa ou afirmativamente”. E na incerteza, na ambiguidade, na oscilação entre afirmar, negar e complicar, navegamos em ondas de problemas ainda mais problematizados pelo uso da linguagem em código, privativa de problematizadores brevetados, Dario, sem querer, mas certeiro, reagiu contra isso, respondendo à altura. Atacam de problemática? Retruca de solucionática. E, com isso, ensina à gente uma atitude positiva, de bom senso e realismo.

Dario, atleta campeão mundial, como se sabe, foi incluído na Seleção Brasileira por iniciativa do Presidente Médici, que lhe apreciou o desempenho esportivo. Pois agora é justo solicitar a atenção de S. Exa. para este novo aspecto do jogador atleticano: um homem simples que diz verdades aproveitáveis. Dario pode livrar o governo de muito inventador de problemáticas. Ele falou e disse.

Texto retirado do livro Quando é dia de futebol, Editora Record

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