Feeds:
Posts
Comentários

Archive for abril \08\UTC 2011

Descartes contra Sócrates

Depois de imortalizar seus pés no museu dos melhores do mundo no Maracanã, Sócrates falou: “- Não sinto nada especial. O importante é ser feliz. Só sinto saudade do bom futebol. Hoje não se joga mais futebol. Os atletas só correm” (Globoesporte.com).

Noutras palavras, Sócrates está dizendo que eu não conheço futebol. Nunca vi uma partida de futebol de verdade. O que vejo são sombras das verdadeiras partidas que ficaram no passado e  que retornariam, segundo sua dissertação de mestrado, se jogassem nove em cada lado.

Pois, em breve pretendo iniciar uma série de comentários sobre jogos clássicos, começando pela final da Copa de 58, Suécia X Brasil. Não espero ver, finalmente, uma partida de futebol. Até porque, não fosse a beleza do futebol de agora sequer me interessaria pelo futebol do ontem. Comentar um jogo antigo é apenas uma extensão dos comentários dos jogos de hoje. Desgosto do tipo de saudosismo que parece transbordar na fala do Sócrates. Prefiro a fala do Tostão, que vê no time do Barcelona uma jovialidade cara ao antigo futebol exaltado pelos saudosistas.

Discordei de Tostão uma vez, quando mencionou Descartes. Disse ele que pensava muito e fazia pouco. Descartes fez muito: tanto que descreveu seus feitos e peripécias de um jeito ímpar, pensando-os. Numa dessas narrativas, alertou para o perigo se inspirar num passado editado e exigir do presente aquilo que nem o passado deu.

Mas eu acreditava já ter dedicado bastante tempo às línguas, e também à leitura dos livros antigos, às suas histórias e às suas fábulas. […] Além do mais, as fábulas nos fazem imaginar como possíveis vários acontecimentos que não o são, e mesmo as histórias mais fiéis, se não mudam ou aumentam o valor das coisas para torná-las mais dignas de serem lidas, pelo menos omitem quase sempre as baixas e menos ilustres circunstâncias: daí resulta que o resto não pareça tal como é, e que aqueles que regulam seus costumes pelos exemplos que extraem delas estejam sujeitos a cair nas extravagâncias dos Paladinos de nossos romances, e a conceber propósitos que ultrapassam suas forças.

Trecho retirado do livro Discurso do método, editora Martins Fontes

Anúncios

Read Full Post »

Casa de ferreiro

Filho de Domingos da Guia. Assim deve ter sido apresentado durante um bom tempo. Depois tornou-se, digo, torneou-se Ademir da Guia, que hoje completa 69 anos.

Muitos não o viram jogar. Uns porque não haviam nascido. Outros não tiveram ritmo para tanto. Para os que não haviam nascido, meu caso, segue um retrato de seu jogo tirado por João Cabral de Melo Neto.

Ademir da Guia

Ademir impõe com seu jogo
o ritmo do chumbo (e o peso),
da lesma, da câmara lenta,
do homem dentro do pesadelo.

Ritmo líquido se infiltrando
no adversário, grosso, de dentro,
impondo-lhe o que ele deseja,
mandando nele, apodrecendo-o.

Ritmo morno, de andar na areia,
de água doente de alagados,
entorpecendo e então atando
o mais irrequieto adversário.

Poema retirada do livro Museu de tudo, Editora Alfaguara Brasil.

Read Full Post »