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Archive for maio \27\UTC 2011

Canal 1.000

Não sou apaixonado por cinema. Mas amanhã me deslocarei um tanto para pegar uma seção. E paguei caro, trinta reias a meia. O filme? Será feito na hora. Em 3D.

A final da Champions League será transitida em várias capitais do mundo em cinemas 3D. Mesmo se não fosse tridimensional. Assistir uma partida entre Barcelona e Manchester, melhor, desse Barcelona e desse Manchester, me faria deslocar para um estado vizinho, se preciso; como se deslocaram pessoas do Brasil inteiro para ver o Paul McCartney. Sei que os fãs de McCartney não se deslocariam para vê-lo num cinema, nem se fosse 4d. Mas minha espectativa é grande.

Do filme Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, além das seguidas cenas de beijo, guardei o ambiente do cinema de antigamente desenhado pelo diretor. Era parecido com o ambiente de estádio. Digo, de estádio aqui no Brasil. Não do Emirates, nem do Camp Nou. Ambulantes circulando pela sala, gente fumando o tempo inteiro, conversando, sobre o filme ou não. E conversar na Itália é gritar.

Pois, amanhã, na seção de 15h30, espero algo mais ou menos assim. Que a sala de cinema rememore seu antepassado e que a gritaria não só seja permitida, mas almejada. Grito de gol. Bola raspando na trave e que o grave “UHHH” estremeça o espaço. Gritos de olé. Aplausos na substituição.

A expectativa é tanta que parece que já conto como foi. Alertar-me-ia a pessoa que nunca leu a Crítica da razão prática: expectativa demais é a origem de todo seu sofrimento. Eu responderia: sua expextativa de não ter expectativa para não sofrer é a maior e mais descabida expectativa que pode haver. Então, anseio pelo começo do maior jogo de todos os tempos, que vai passar no canal 1.000.

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Em uma única noite, Inter, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro foram eliminados da Libertadores. Todos de forma surpreendente. Os casos de Inter, Cruzeiro e Fluminense foram mais drásticos.  Inter e Cruzeiro um pouco mais, por ter acontecido dentro de casa. Na verdade, concordando com o filósofo espanhol Ortega y Gasset que o homem possui a tendência de fazer-se centro do universo, ainda mais se, por causalidade, esse homem for espanhol, afirmo com autoridade incontestável: a derrota do Cruzeiro foi a pior de todas.

A campanha na Libertadores estava impecável. Várias goleadas. Muitos gols feitos, poucos  sofridos. Classificou-se para a segunda fase da competição em primeiríssimo lugar. Conquistando o direito de decidir em casa e enfrentar o pior adversário classificado para o famoso mata-mata. Venceu o primeiro jogo, na Colômbia, por 1 x 2. No segundo jogo, 0 x 2 para o Once Caldas. Poderia ter sido mais.

Eduardo Polla cunhou a expressão Miercoledazzo, algo como “a grande quarta-feira”, referindo-se ao Maracanazo, a derrota da Copa de 50. Eu diria que foram pequenos Maracanazos, diluidos em vários jogos. Pequeno também por ter acontecido num momento distante do desfecho final. A derrota do Cruzeiro para o Estudiantes na final de 2009 foi certamente mais dura, e até bem parecida com a fatídica derrota do Brasil para o Uruguai, dois a um para o visitante e de virada. Esse ano o time prometia mais e o torcedor sofreu menos com a derrota.

Concluí que não há nem haverá momento mais propício para a publicação de um texto comemorativo, na gaveta desde 2009, esperando a ocasião certa para brilhar. Por um motivo muito claro. Esse time o merece, não morreu na praia. E nunca morrerá.

Minas Gerais não tem mar

O esclarecimento das coisas é um perigo para a beleza das palavras. E onde há gente, há luz. De tanto se falar dois versos de Fernando Pessoa, como se fossem o que de mais óbvio há nesse mundo, as palavras perderam seu devido brilho. “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Sabe-se mesmo de onde isso provém? (Sem recriminação) Uma em cada dez pessoas que as distribui talvez saiba o título do poema. E esse não é um dos casos mais graves. Como bem nos lembrou Popst, a frase de Shakespeare que brota até mesmo da boca de um cavalo, diante do inexplicável, hora alguma classifica a nossa filosofia de vã.

Se alguém reclama da falta de mar no interior, é porque nunca se deu conta que o céu estrelado dos lugares não banhados pelo oceano costuma ser infinitamente mais belo, pleno e brilhante. O esclarecimento das coisas também é um perigo para a beleza de um céu estrelado.

É certo que há lugares onde não há mar nem céu estrelado. Também existem aqueles onde há mar e um céu repleto de estrelas. Mas esses últimos são exceções, que existirão cada vez menos. Prefiro falar aqui de outra exceção, mais persistente.

Desde pequeno conheço cinco estrelas que sustentam seu brilho mesmo sob forte presença de luz. Arrisco dizer que diante do perigo essas estrelas brilham ainda mais. Pode-se ascender dezenas desses refletores de estádio que a beleza delas não diminui. Ao contrário, aumenta. Alguém diria que é por conta da forte consistência do azul celeste que as abriga. Tenho minhas dúvidas. Tanta perseverança assim diante do perigo só foi vista uma vez, nas grandes navegações. Quem compara as viagens espaciais a esse feito se engana profundamente. Hoje, o viajante, antes de viajar, já conhece a composição química da matéria que sujará sua bota. Antes, não.

Levando em conta uma das falas mais verdadeiras que já apareceu por aqui, que o futebol é uma caixinha de surpresas, hão de concordar comigo que a bravura das cinco estrelas brilhando mesmo diante de toda a luz do mundo é a mesma dos navegantes. Até porque os imigrantes italianos não vieram de avião para o Brasil. Minas Gerais não tem mar. Ainda bem. Só assim um reflexo dele pôde permanecer por lá. Não vos pareceu que os grandes títulos foram disputados em um pedaço de terra cercado por água?

Se a cor é azul celeste ou azul marinho, pouco importa. Sei que por conta desse azul, há cinco estrelas que, juntas, jamais foram vencidas, não obstante tão combatidas, como diz o hino em sua homenagem. E outro hino confirma: sua imagem ainda resplandece.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu

Fernando Pessoa

Trecho retirado do poema Mar português.

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No início dos anos 80, Raul Seixas, com sua genialidade e irreverência típicas, deu a solução para um povo sofrido às voltas com a hiperinflação, o desemprego e a miséria: “alugar o Brasil”. O motivo seria simples: “nós não vamos pagar nada”!

Sua ideia, obviamente, não foi levada adiante (pelo menos não ao pé da letra) pelos nossos governantes da época e a música, “Aluga-se”, foi censurada <http://pt.wikipedia.org/wiki/Raul_seixas>.

No entanto, os comandantes do futebol brasileiro teimam em reinventar a roda. Não somente por nos brindarem com métodos monárquicos de governança, mas por, de forma triste, dar vazão à ironia do nosso grande poeta Raul.

A importância do futebol no Brasil é, por demais, assimétrica com outros aspectos relevantes às vidas das pessoas, seja por ser usado como válvula de escape social pela mídia estabelecida ou confundir-se com a própria história da sociedade brasileira.

É nesse ínterim que Londres é saudada como a nova casa da nossa seleção.

http://globoesporte.globo.com/futebol/selecao-brasileira/noticia/2011/03/com-raros-amistosos-no-brasil-londres-vira-casa-da-selecao.html

http://video.globo.com/Videos/Player/Esportes/0,,GIM1468859-7824-TORCEDOR+BRASILEIRO+ACOMPANHA+JOGOS+DA+SELECAO+EM+LONDRES,00.html

Nossa seleção? Não vejo motivos para tamanho sentimento de posse. Se alugar um imóvel que dá problemas pode nos livrar, mesmo que temporariamente, desses problemas e ainda render um dinheirinho, alugar uma das melhores seleções do mundo para “inglês ver” deve ser algo muito rentável. Mas não deve ser somente isso. Jogar no Brasil não é conveniente. A obrigação em casa é ganhar sempre. As críticas são duras quando o time perde ou joga mal. Lembro-me do último Brasil e Colômbia no Maracanã. Eu estava lá. Nunca senti tanto sono numa partida de futebol. Porém, fugir de sua torcida e, portanto, fugir do que lhe dá motivo de existência é um tiro no próprio pé. Dano que é minimizado pela imprensa que também lucra com a transmissão dos jogos de além-mar.

Uma pena que o futebol brasileiro não seja propriedade do povo brasileiro. Talvez nunca tenha sido. Uma pena que a solução para a nossa seleção seja alugá-la para os ingleses. Mais triste, que isso seja festejado por outrem que anseia vender nosso maior esporte a seus verdadeiros donos. Talvez Raul não tenha nos dado uma solução no longínquo ano de 1980. Talvez tenha somente vislumbrado nosso triste futuro.

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