Feeds:
Posts
Comentários

Archive for junho \25\UTC 2011

Geralmente nossos convidados detém a última palavra. Dessa vez, publico um texto de Eduardo Galeano para depois refutá-lo. Mas enquanto não o refuto, desfrutem-no. Depois também.

O estádio

Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém. Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevidéu, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do estádio Azteca, ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano de pelota. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em euskera conversam as arquibancadas do San Mames, em Bilbao. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete gols que fazem vibrar o estádio que leva seu nome. A final do Mundial de 74, ganho pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no estádio Olímpico de Munique. O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer.

El estadio

Ha entrado usted, alguna vez, a un estadio vacío? Haga la prueba. Párese en medio de la cancha y escuche. No hay nada menos vacío que un estadio vacío. No hay nada menos mudo que las gradas sin nadie. En Wembley suena todavía el griterío del Mundial del 66, que ganó Inglaterra, pero aguzando el oído puede usted escuchar gemidos que vienen del 53, cuando los húngaros golearon a la selección inglesa. El Estadio Centenario, de Montevideo, suspira de nostalgia por las glorias del fútbol uruguayo. Maracaná sigue llorando la derrota brasileña en el Mundial del 50. En la Bombonera de Buenos Aires, trepidan tambores de hace medio siglo. Desde las profundidades del estadio Azteca, resuenan los ecos de los cánticos ceremoniales del antiguo juego mexicano de pelota. Habla en catalán el cemento del Camp Nou, en Barcelona, y en euskera conversan las gradas de San Mamés, en Bilbao. En Milán, el fantasma de Giuseppe Meazza mete goles que hacen vibrar al estadio que lleva su nombre. La final del Mundial del 74, que ganó Alemania, se juega día tras día y noche tras noche en el Estadio Olímpico de Munich. El estadio del rey Fahd, en Arabia Saudita, tiene palco de mármol y oro y tribunas alfombradas, pero no tiene memoria ni gran cosa que decir.

Texto retirado do livro: Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano, editado por L&PM.

Anúncios

Read Full Post »

Joel no Cruzeiro

Primeiro, sobre o Cuca. Não, primeiro sobre mim.

Houve tempos em que o trabalho mal começava e surgia um motivo para me levantar, lavar o rosto no banheiro. Bastavam as ideias ameaçarem ganhar vida, corpo e movimento para que proclamasse: hora do almoço. Engatar semanas seguidas de escrita com afinco só mesmo na véspera de férias. São pequenos suicídios cometidos todos os dias, todos os anos.

Não que o Cuca faça isso, mas parece. Suspeito que foi assumir a liderança do campeonato do ano passado para desestimular o time em mensagens subliminares durante o treinamento. Na preleção, sob os gritos de garra, coragem e enfrentamento, jazia o ímpeto de afastar-se da vitória. Na ira disparada contra a arbitragem no jogo diante do Corinthians quase transparecia um alívio de não ser campeão, pois já não precisava mais culpar a si mesmo pela derrota tramada dia a dia.

Justificou sua ira depois. Disse que todo mundo tem um indiozinho escondido que às vezes aparece e ataca flechas e machadinhas. E se esse indiozinho for daqueles que vivem em pé de  guerra? Quando não ataca o mundo externo, o espírito do Cuca é o inimigo. Uma das manchetes do site Supersportes é: “Cruzeiro espera manter a ‘sina do Cuca'”. São Paulo, Flamengo e Fluminense foram campeões brasileiros com trabalhos iniciados por ele. A decisão do Cruzeiro me parece correta. Não por conta dos exemplos anteriores, mas porque, de fato, não parecia haver mais clima para a volta por cima. O tal indiozinho não deu brechas para tanto.

Chega Joel Santana, que fez bons trabalhos ao longo de sua carreira. Mas digno de nota aqui, já que não se trata de um blog que quer competir com atualidade jornalística, tampouco com o rigor histórico e armazenamento fatual do jornalismo, é a outrora famosa e hoje esquecida empreitada de Joel para falar inglês numa entrevista dada na África do Sul. Se Nelson Rodrigues disse que diante 200 mil pessoas, Maracanã lotado, não se chupa nem um chicabom sem grandes dificuldades, arriscar um inglês diante da câmera que potencialmente fala para o mundo inteiro é uma das atitudes mais corajosas que se viu nas últimas décadas.

Corajosa também sua decisão de treinar o Cruzeiro. “Rei do Rio”, Joel arrisca-se em terra estrangeira. Tão longe quanto o português do inglês, talvez seja a distância entre o carioca e o mineiro. Aliada a iniciativa ou petulância de um à paciência ou modéstia do outro, é bem provável atingir a perfeição. O problema é que foi justo na tentativa dessa conjugação que fracassou toda a filosofia durante seu percurso pelos séculos. Tem, ao menos, história para contar. Para isso, quase basta ter iniciativa.

Read Full Post »

É com algum atraso que publico este texto. Por conta dele impus-me uma máxima, no sentido kantiano, que levou-me ao cinema para assistir à transmissão do maior jogo do ano. Era para ser publicado na véspera ou logo depois da final da Champions League. Mas como a proposta deste blog não é a de competir com a atualidade jornalística, ainda é tempo de publicá-lo. Apesar de que o fato de ser um blog exige da minha pessoa maior rapidez e frequência nas publicações.

Canal 100

Quem gosta de futebol e já era grandinho nos anos 1980 há de se lembrar do Canal 100. Quando as luzes da sala de cinema se apagavam, a tela se enchia de bolas coloridas de variados tamanhos, explodindo como se fossem fogos de artifício, e se ouvia em alto e bom som a musiquinha inesquecível: pananan nanammm…

Nesse momento abriam-se, de par em par, as janelas do sonho. E por elas atravessávamos de corpo e alma, entregues à grandiosidade das imagens, à magia da câmera lenta, ao encanto de uma voz potente e familiar que narrava cada lance como se fosse uma decisão de Copa do Mundo.

Criado no final da década de 50 por Carlos Niemayer, o Canal 100 surgia como um telejornal provocador. Não era como os pequenos números da televisão: 2, 3, 5, 6, 7. Era o canal 100 ora essa, faça-me o favor!

Exibido antes das seções de cinema, e renovado a cada semana, o telejornal abordava assuntos do momento, mas seu forte mesmo eram as matérias sobre futebol. Às vezes, o filme em si era fraquinho, e saíamos do cinema com aquela sensação de tempo perdido. Quer dizer, quase perdido. Por pior que fosse o filme, tínhamos assistido antes ao Canal 100 e isso já fazia valer o ingresso.

Em artigo para o site Cinemascópio, Kléber Mendonça Filho lembra bem o que era aquilo: “O futebol do Canal 100 tinha releituras de jogadas impossíveis de serem vistas das arquibancadas ou na televisão, um futebol em 35mm, gingado nos seus mínimos detalhes. Mulheres na plateia geralmente amavam as imagens ampliadas de coxas musculosas dos atletas, os jogadores escarravam elegantemente ansiosos em câmera lenta, a tensão de uma barreira de homens preocupados com um chute potente, abola rodopiando doida em direção à rede.”

Era isso. Era mais do que isso. Quando assistia às seções do telejornal, ficava em mim a vaga intuição de que aquilo não era apenas efeito da arte de um grupo de cinegrafistas de primeira linha, com destaque para Francisco Torturra. Havia algo mais, que não se podia explicar pela técnica do cinema. Quem sabe fosse alguma coisa no campo da intuição, do espírito, talvez uma fagulha divina que se insinuava em algum lugar indecidível entre a câmera, a arquibancada, o gramado e, se metendo em meio aos torcedores, jogadores, juiz, bandeirinhas, gandulas, repórteres, encontrava o espaço exato para o indizível, para o que não se pode pegar com a mão.

Minha intuição ganhou força quando um cinema do Rio, o Estação Botafogo, resolveu apresentar seções mais longas do telejornal. Não seriam seções que antecedessem as de um filme qualquer, nada disso, o Canal 100 deixaria de ser o jogo preliminar e passaria a ser ele mesmo o grande clássico. Seriam seções editadas, reunindo séries de apresentações de modo a compor cada uma mais ou menos o tempo de duração de um longa-metragem.

Não me lembro bem quando se deu o festival do Estação, mas me lembro do que pensei quando soube da notícia: não vai dar certo.

O Canal 100 funcionava justamente porque era curto e porque antecedia o longa-metragem. Colocado assim, no meio do palco, sob a luz dos holofotes, o coitado corria o risco de dar vexame, de gaguejar na frente da plateia, de esquecer a fala e ser vaiado ostensivamente por espectadores raivosos. Confesso, fiquei com pena do Canal 100. Nutria por ele um carinho fraternal e me doeu o coração saber que estaria exposto ao ridículo.

Claro que não poderia me furtar ao compromisso de assistir. Afinal, era quase um irmão que estava lá, na berlinda. Escolhi uma seção que apresentava um histórico dos clássicos entre Flamengo e Botafogo.

Botafoguense de carteirinha, achei que não deveria ir sozinho. Seria fundamental convidar um flamenguista, já que o programa, se tinha a ver com futebol, exigia uma cerveja depois, acompanhada de apaixonado embate. Convidei meu amigo Miguel Falbo, músico de primeira e jogador de segunda, que apesar de tudo se dizia grande entendedor do esporte bretão.

Quando entramos na sala de cinema, o que vi foi absolutamente insólito. Todos os lugares praticamente tomados (tivemos que ficar espremidos num cantinho lá na frente) por alucinados torcedores, alguns portando enormes bandeiras, a maioria com latas de cerveja ou refrigerante nas mãos. Ao meu lado, um senhor estava sentado sobre uma almofada rubro-negra que trouxera de casa e tinha um radinho de pilha colado no ouvido. A almofada até dava para entender, fora um capricho, mas radinho de pilha?!

Como diria o velho Simão Bacamarte, saído da pena genial de Machado de Assis: “insânia, insânia e só insânia”.

Eram na maioria homens espectadores, mas havia mulheres também. E muitos usando as camisas dos times (não entendi a presença de um moço branco, magro, pálido, com a camisa do Vasco – talvez tivesse errado de seção ou talvez fosse um poeta romântico em busca de emoções fortes). Boa parte da plateia fumava desbragadamente, o que tornava ainda mais nebuloso o cenário, de onde surgiriam dali a pouco as tão esperadas imagens na tela. Aquilo não era uma sala de cinema, era uma mistura de bar e Maracanã em dia de decisão.

Começa a seção. Bolinhas coloridas pipocando na tela, música: pananam nanammm… Delírio da galera, bandeiras desfraldadas, uivos. Insânia, insânia e só insânia. Diante de tudo isso, desse clima de paixão e prestes a explodir, não era de se estranhar que, a cada cena passada na tela, os torcedores reagissem como se estivem assistindo ao jogo ao vivo!

Quando Paulo César Caju deu um toque de classe, a turba alvinegra gritou em coro: PC! PC! PC! Quando Zico bateu uma falta que passou arrancando tinta do travessão, foi a vez de os flamenguistas soltarem um urro vindo do fundo d´alma: uhhh!!! Um gol do Gérson quase fez o cinema vir abaixo. Um gol, aliás, vindo de que lado fosse, era seguido de verdadeira apoteose.

Todos sabiam de cor e salteado o resultado dos jogos. Para os que não se lembrassem, um cartaz na porta do cinema ainda ajudava, anunciando os jogos (com placar e tudo) que seriam exibidos naquele horário. A maioria já havia assistido aos lances – boa parte mais de uma vez até – e, no entanto, todos torciam como se fora a primeira vez.

Na condição de quem estava ali para analisar o fenômeno e quem sabe utilizá-lo como matéria-prima para um conto futuro, resistia o quanto podia ao frenesi coletivo. Mas quando olhei por lado e ouvi o Miguel mandando o Mozer (do Flamengo) ir tomar naquele lugar, percebi que o caso estava perdido.

Não havia volta. Aquelas pessoas reunidas na sala de cinema eram a nata da nata do manicômio, e o grande louco, na verdade, era eu. Eu era o próprio Bacamarte. Era o estrangeiro, o estranho no ninho e só havia um jeito de salvar a minha alma. E esse jeito tomou forma quando surgiu a ocasião: um zagueiro do Flamengo deu um carrinho por trás, uma entrada criminosa no centroavante do Botafogo, e o juiz nem falta marcou. Eu me levantei, convicto, e do alto de minha doida sanidade gritei a plenos pulmões: ladrão!

Pronto, estava decretada enfim minha entrada no país do delírio. Um garoto passou vendendo cerveja numa caixa de isopor e isso, claro, me pareceu perfeitamente normal, cheguei a perguntar onde é que ele estava que não havia chegado antes.

Comprei duas latinhas, dei uma para o meu amigo. Quando houve um pequeno intervalo na projeção, brindamos como se nossas latinhas fossem grandes canecas de vinho tinto nas mãos de valorosos guerreiros vikings. E enquanto bebíamos olhávamos desconfiados um para o outro, na breve trégua que antecedia o segundo tempo.

Texto retirado do livro Passe de letra: futebol & literatura, Editora Rocco.

Read Full Post »

Eu já sabia

Dia de jogo. Saio mais cedo que o necessário. Jogo às 15h30, por volta das 13h20 já estou no ponto de ônibus. Dez minutos e nada. Tudo bem, sábado tem menos fluxo. Paro um ônibus que acreditava servir e, por via das dúvidas, pergunto: passa no Down Town? Não, pega o 524. “Cinco dois quatro?”, pensei comigo, nunca vi esse ônibus passar aqui. Confirmo com outro motorista. Sim, passa aqui.

Vou esperar o 524. Trinta minutos e nada de 524. Quem pega ônibus escasso sabe a intensidade da aporia: pego a segunda opção de ônibus, que seriam na verdade dois ônibus, ou espero esse outro que parece nunca passar? Pois quanto mais tempo tempo espero mais chance ele tem de aparecer. E quanto mais tempo espero mais parece que ele nunca vai passar. Enfim, decidi sob a pressão do relógio e peguei a segunda opção, trocaria de ônibus no meio do caminho.

Engarrafamento no Jardim Botânico. Sábado?! É, sábado, engarrafamento. Eis que no meio do engarrafamento me ultrapassa o 524. Não é previsível?! Não tinha cruzado a roleta, por falta de troco. Peço pra descer e corro atrás do 524. Com alguma dificuldade alcancei-o e entrei pela porta de trás, a da frente não estava funcionando bem. Na verdade, ônibus não parecia funcionar bem. Nesse caso, a aparência confirmou-se verdadeira. Em pleno viaduto na chegada à Barra o ônibus para. Tenta arrancar. Quebrou mesmo. A minha brincadeira de que a ida à Barra seria uma saga, aos poucos, perdia a graça.

Resolveu-se o problema e em quinze minutos cheguei ao DownTown, um simpático shopping ao ar livre. Ansiedade na retirada do bilhete comprado quatro dias antes. Colocava na boca da atendente as seguintes palavras “GAMK38, não consta aqui…”. Mas ela disse: “Bernardo?”. Comecei então a observar o ambiente de maneira mais ampla. E não vi bandeiras, burburinho de estádio, nada disso. Algumas pessoas trajando a camisa do Manchester ou Barcelona, mas como se tivessem desfilando num shopping. Também não vi pessoas bebendo cerveja nos arredores e transpirando a partida. Acho que vou mesmo ver um filme, pensei.

Ovomaltine ao invés de Heineken, então. Entro no cinema e escuto algo como “Tem cerveja lá dentro, mas só da patrocinadora da Champions”… Não vi, mas meu olho deve ter brilhado. Jogo regado a Heineken e Ovomaltine. Que mais eu poderia querer? Ah… Um gol do Pedro, com passe magistral do Xavi, por favor. Diversificando, pedi um golaço do Rooney. Depois, um do Messi, que nunca havia marcado em território inglês. Na comemoração chutou o microfone na beira do campo. No replay, ficou mais explícita a explosão do argentino, que fez o cinema gargalhar. Rir de felicidade, não há nada como rir de felicidade. Pra finalizar, pedi um golaço do Villa. Sim, um golaço, por favor. Tão bonito que faria o cinema inteiro, acredito eu, até os torcedores do Manchester, baterem palma. Nem tanto no exato momento do gol, mas principalmente para a sua repetição, por outro ângulo, que escancarou a beleza já antevista.

Read Full Post »