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Archive for julho \23\UTC 2011

Atrever-se

Ano passado Román Iucht publicou um livro sobre Marcelo Bielsa, treinador argentino. O título: La vida por el fútbol: Marcelo Bielsa, el último romántico. Conhecido como El loco, Bielsa prefere o ataque à defesa. Sobretudo nas situações arriscadas.

Encantando com o mesmo atrevimento, esse ano Román Iucht  publicou um texto sobre Tevez na edição de junho da Playboy argentina, intitulado Rebelde con causa. Um mês antes da Copa América, o texto é uma homenagem ao jogador que despediçou um pênalti na disputa contra o Uruguai, custando a eliminação dos hermanos.

A parte final poderia muito bem ter sido escrita depois desta partida.

Mientras tanto, el tipo sigue en la suya. Su andar, su alegría y su atrevimiento continuarán como su marca registrada. De las carencias de los tiempos peligrosos de Fuerte Apache, a al vida disipada en la elegante Manchester. De la bailanta y la cumbia a los contratos con seis ceros. Sin olvidar el pasado, disfrutando el presente y proyectando el futuro.

Carlito es un rebelde con causa. Con su lengua filosa o su cintura endiablada, pronto tendremos una nueva gambeta. Sólo es cuestíon de esperar y ver con qué se larga la próxima vez.

Pelearle a un destino que parecia escrito es su gran especialidad y ese partido, sin dudas, lo está ganando por goleada.

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¡Patria o muerte!

Depois de elencar praticamente todos os confrontos mundiais em que o mais fraco estava sendo massacrado pelo mais forte, Che Guevara termina seu discurso na Assembleia das Nações unidas, em 1964, com a fatídica frase: “¡Pátria o muerte!“. Foi ovacionado pelos presentes.

Doze paises, una paisión“, diz o slogan da Copa América. A caminho de Córdoba, cidade onde Che Guevera viveu por um tempo, e passando por Rosario, sua cidade natal, foi simples olhar para o outdoor à beira da autoestarda e lembrar-me de seu sonho adolescente e repetido nesse mesmo discurso de 1964: ver uma América Latina unida.

Na primeira interpretação do slogan não tive dúvidas sobre a paixão que reunia os países participantes: fútbol. A mesma que me trouxe até a Argentina. Ela, que reuniu os peladeiros da foto e que me fez idealizar uma final entre Brasil e Argentina. Bem como uma disputa pelo terceiro posto entre Uruguai e Chile.

Dizem que o futebol é o único esporte onde o mais fraco pode derrotar o mais forte. Mas em qualquer esporte isso pode acontecer vez ou outra. O que não pode é em quatro confrontos os quatro mais fracos derrotarem os quarto mais fortes. Isso, só no futebol. Argentina, Brasil, Chile e Colômbia se depediram prematuramente da competição.

Se é isso mesmo que caracteriza o futebol, não houve torneio mais futebolístico que essa Copa América. Talvez a Libertadores desse ano. A diferença é que no torneio entre clubes os adversários mais fracos jogaram melhor que os mais fortes, quero dizer, foram os mais fortes naqueles noventa minutos. Na competição entre selecionados não. Todos os times que jogaram bem sucumbiram.

Uruguai, Peru, Paraguai e Venezuela são os quatro melhores da América, atualmente. O jogo mais desigual: Brasil e Paraguai. Nas entrevistas depois do jogo, os jogadores paraguaios mencionavam a superioridade brasileira com um adendo. Nosso time teve muita garra e raça. Digamos, deu sangue em campo. Ressoava em seus ouvidos as palavras de Guevara aos oprimidos, “¡Patria o muerte!“. Só pode. Ressou de tal forma que tornaram-se os opressores.

É preciso recordar Nelson Rodrigues: “A pátria em chuteiras”. Brasil, o país do futebol. Se colocarmos em termos de continente acreditando no slogan da Copa América e de Che Guevara, diríamos: futebol ou a morte. Oprimido, é hora do futebol libertar-se nas partidas de hoje à noite, seja de que lado for. O sonho só pode ser este: que o futebol se torne o opressor. A ponto destruir fronteiras e bandeiras.

Sonho que os jovens hermanos não foram capazes de ter, torcendo contra o futebol e a favor do Paraguai, no último domingo. Ao contrário dos dois senhores argentinos sentados mais ao lado.

 

 

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Digno de nota

O estádio Municipal de Córdoba é admirável. Construído para a Copa de 1978 e reformado para essa Copa América, é bonito visto de longe e de perto. Por dentro, ainda mais. E melhorou com a entrada das equipes em campo. Nunca havia visto a seleção jogar. Jogadores enfileirados, hino dos dois países, tudo isto que pela TV soa como um atraso de vida ou tempo para buscar a cerveja na geladeira, no estádio ganha sentido e motivo.

Extingue-se a menor dúvida: trata-se de um torneio entre selecionados, entre países. Vale o lema do Barcelona: mas que un club. Eu que sempre pensei o contrário: seleção, menos que um clube. Eu e boa parte dos brasileiros presentes no estádio, que exibiam mais camisas e bandeiras de seus times que da seleção.

É preciso recordar Carlos Drummond: futebol mesmo, só no estádio.

Na entrada, a organização distribuía panfletos. Desses que a gente pega na porta da faculdade, no centro, ou no sinal de trânsito. Mas esse não era só frente e verso. Tinha algumas páginas. Poucas figuras, muitas palavras. Tratava-se de um conto do Ruben Fonseca sobre um jogador, suas inseguranças e sonhos.

O Ministério de Educación de la Nación, com seu Plan Nacional de Lectura, realizou a divulgação deste conto vertido para o espanhol, numa iniciativa que tem como lema “Pasión por leer“. E agora não é tanto o caso de lamentar que algo assim não aconteça no Brasil. A superioridade argentina nesse quesito é absurda. Para comprová-la, basta assistir os comerciais da TV. Alguns deles não seriam compreendidos por boa parte da população brasileira.

Digno de nota é que apesar disso é o Brasil, e não a Argentina, que tem um jogador com o hábito de leitura. Ganso se porta em campo como quem se debruça sobre um livro. Parece fora da realidade, submerso num mundo subjetivo, particular. Não faz estardalhaço. Faz pouco esforço. Quase não corre. Mas é o líder de assistências da Copa América.

O lema divulgado pela Secretaria de Educación “Pasión por leer” tem um pouco de paixão por Paulo Henrique Ganso. Dar crédito à leitura de um conto do Rubens Fonseca é como manter em campo um jogador que pouco corre, que some no jogo, apesar de decisivo. O protagonista do conto diz, certa hora: “Yo estaba tan empelotado que solo en ese momento me di cuenta de qu mi juego había sido una mierda, no había hecho otra cosa que correr dentro de la cancha como un imbécil“.

Se mantiver seu estilo de jogo, Ganso vai ser lasciva e constinuamente criticado por sua lentidão, omissão, ou qualquer coisa do tipo. O que não pode acontecer é sacá-lo do time. Já que não temos uma política de incentivo à leitura nos padrões da Argentina, é preciso cultivar e exaltar jogadores como este. Zizinho, Ademir da Guia e Alex, não brilharam na seleção brasileira como o fizeram em seus clubes. É hora e vez de um jogador dessa linhagem brilhar pelo Brasil.

 

 

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Panela velha

Panela. É quando os melhores jogadores da turma formam o time dos sonhos. O resto forma outros times, os que serão massacrados pela panela. Ou deveriam ser. Se tomarmos a intenção pela realidade, como diz Kant a respeito das pretensões da metafísica, o time dos sonhos é imbatível. A meta é claramente essa: ganhar antes do jogo. Pois não só se concentra os melhores jogadores de um lado; numa só ação, concentra-se também os piores do outro.

Acontece que dentre os piores subsistem bons jogadores, que inclusive já frequentaram a panela. Dentre estes, existem aqueles que deixaram-na por incompetência futebolística ou social. Mas também há os que deixaram-na por opção. Perguntam-se: qual é o sentido de vencer um jogo que já está ganho? Sob um aspecto menos intelectual, mais à flor da pele: que prazer se tem na conquista assegurada de antemão? Se a meta é o prazer, quero dizer, a meta é o prazer e nada pode ser mais prazeroso para um jogador que derrotar a panela. Quanto mais fraco for o seu time, mais prazer se tem na vitória. Mais ele se esforça para obtê-la. Joga por três, por quatro. Faz das deficiências dos outros jogadores o melhor uso possível. Uma roubada de bola é celebrada como um gol. E o perna de pau sente-se grande, crescente e joga como nunca.

Do outro lado, joga-se pela metade. Muita gente para resolver o jogo. Mais cedo ou mais tarde, um ou outro fará uma jogada genial, como aquelas que fizeram para chegar até ali. Só que jogadas geniais não são feitas pela metade. Tampouco se evita o ataque adversário desconhecendo o poder de seu inimigo. Sim, este que de repente revela-se forte. E o que é pior: tendo prazer com seu jogo. Prazer que deveria pertencer aos vitoriosos, aos selecionados, àqueles que sabem jogar futebol. Surge o desprazer. Com ele, a briga de egos, aquele desequilíbrio que impede qualquer tipo de reação.

Extendendo minha experiência particular das peladas de infância e adolescência, digo que nas peladas pelo mundo afora isso não é tão raro quanto parece. Extendendo um pouco mais essa experiência particular (extensão que é para Kant um movimento natural de nossa razão), digo que essa Copa América se explica com essa tese. Brasil e Argentina, as duas panelas, esforçando-se languidamente para arrancar empates. A Argentina ainda mais, pois tem uma panela mais forte. Durante o jogo é explícito: o adversário parece ter quinze, dezesseis ou dezessete jogadores em campo. A Argentina, oito e meio, talvez.

O primeiro contra-argumento (supondo um leitor que contra-argumentaria) à tese seria que, na Copa América, trata-se de um torneio profissional e não um passatempo infanto-juvenil. De fato. Mas o início de trabalho de um selecionado parece bastante com um time de pelada, recém montado. É o caso de Brasil e Argentina, não tanto do Uruguai. E de fato não há muito o que se fazer imediatamente. Soluções milagrosas são sugeridas por todos. Tirar um volante para colocar outro meia. Recuar ciclano. Sacar o Robinho do time, Daniel Alves ou até mesmo o Neymar. Mas só o tempo, leia-se, o trabalho, testes, erros e acertos, podem ajeitar o time.

Tirar o salto alto, entrar com humildade, não é uma opção. Brasil e Argentina tem os melhores jogadores do mundo. E isso não vai mudar, pelo menos não por agora. Logo, a última opção é desfazer a panela. Deve-se curti-la. Colocar sempre os melhores para que se tornem ainda mais capazes.  A ponto de praticamente vencerem a partida de antemão, a priori. De tal modo que a superioridade não tire o estímulo dos jogadores, pelo contrário, o aumente. Aí sim estaria a diferença entre os profissionais e a diversão infanto-juvenil. Nisso consiste a maturidade. Pelo menos foi isso que me contou um dos personagens confabulados por Guimarães Rosa:

Amor é sede depois de se ter bem bebido. 

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Casa vazia

Eduardo Galeano disse que se entrarmos num estádio vazio, com alguma atenção, ouviremos vozes do passado. Que as partidas épicas entranham-se no cimento e ressoam ali por um período indeterminado. O choro dos brasileiros na final de 50, talvez o exemplo mais marcante para nós. E para ele, que é uruguaio. Refutar essa tese seria impossível para mim. Pois nunca entrei num estádio vazio. Digo, completamente vazio.

Há algum tempo meus pontos turísticos principais tem sido os estádios. Grandes ou pequenos. Em Natal, praticamente invadi um conjunto de prédios para ter visão do campo do Alecrim Futebol Clube. Disseram-me que Garrincha jogara no Alecrim. Logo, eu precisava aproximar-me ao máximo do campo que Garrincha pisou. Mas não ouvi vozes nem vi espectros de suas investidas na lateral do campo.

Em estádios maiores é comum se comercializar o “tour” pelo local. Visita-se vestiários, salas de imprensa, tunel de entrada, beira do campo e arquibancadas. Mas ali não há silêncio. O guia não para de falar. Por algum momento, geralmente nas arquibancadas, pode-se desvencilhar um pouco do grupo e ter uma experiência próxima da que Eduardo Galeano descreveu. Mas não escuto nada.

Aliás, estou bem convencido de que poucas coisas são mais patéticas que visitar um estádio vazio. Conheçamos seu passado ou não. No Chile, visitamos o Estádio Nacional. Eu sabia, mas não lembrava: o estádio foi usado como prisão e local de tortura na ditadura militar. A abordagem do vigia, permitindo uma caminhada nos arredores mas proibindo a entrada no estádio e “- Nada de fotos!”, não lembrou-me de seu passado aterrorizador. Talvez ali vozes emanassem do concreto cinza e envelhecido. Mas não havia silêncio para tanto.

Aproximando-nos do estádio vimos pessoas e portas abertas. Num pálido mas ainda sim desafio à ditadura, entramos. Tinha jogo. Campeonato infantil. Na arquibanca a torcida mais apaixonada de todas: as famílias dos meninos. Jogo feio, truncado, poucos lances de efeito, porém um lugar muito mais significante que vestiários, corredores, arquibancadas. Aliás, sentido era o que sobrava. Música da FIFA na entrada dos pequenos atletas e Cordilheira dos Andes como pano de fundo.

Certamente o estádio mais belo que visitamos. Assim como a cidade mais encantadora foi Santiago. O caso é que poderia ter sido outro estádio e outra cidade. Pois não tivesse aquele vigia exibindo sua autoridade falida para a burlarmos e os meninos exibindo seus talentos incipientes para imaginarmo-nos, o estádio não teria dito o que nos disse. Não fosse aquela noite no bairro Bela Vista que gerou amizades que perduraram e tantas outras que ali mesmo desapareceram, mais ainda com a máquina que se foi, Santiago não teria o brilho que teve.

Silêncio no estádio só mesmo daquele tipo que o Romário provocou em 2000, jogando pelo Vasco e contra o Curzeiro, no Mineirão. Toque sutil, tirando do goleiro, gol aberto. A jornada da bola até a rede ainda era longa. Ela, sem a menor pressa, aproximava-se da meta. Silêncio total no estádio, respiração coletivamente presa. A bola beija a trave e sai. Junto com o ar dos milhares de pulmões presentes.

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