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Archive for agosto \22\UTC 2011

Idealizada há algum tempo, a seção “Recordar é sobreviver” faz sua estreia no blog. Artifício também conhecido como reblog. É isso mesmo. Em temporadas de baixa inspiração repete-se os melhores momentos do passado. Aproveitarei algum acontecimento atual como ensejo, na melhor das hipóteses. No caso de hoje, o gol de bicicleta de Leandro Damião.

Amor, gol de bicicleta e Copa do Mundo (por Bernardo Boelsums)

No livro Cartas a um jovem poeta, palavras de Rainer Maria Rilke: amar exige uma força e delicadeza tão grandes que todas as outras ocupações parecem um estágio preliminar.

Suspeito que o mesmo se passe com o gol de bicicleta. Conseguir três embaixadinhas seguidas, matar uma bola no peito, dominar um passe, dar um passe, assistir a um craque em campo, em tudo isso subsiste um treinamento para dar uma bicicleta. Engatinhar, andar, equilibrar-se numa perna só, pular, dar cambalhotas, tudo isso também. O golpe certeiro de uma bicicleta precisa carregar um passado imenso. E não se trata de um passado de treinamentos explícitos dessa jogada.

Para Nelson Rodrigues, Leônidas da Silva a inventou. A partida: Brasil e Argentina, em São Januário. Eduardo Galeano atribui a patente ao chileno Ramón Unzaga, que a criou no campo do porto chileno de Talcahuano. Acertaram ambos. A jogada não é uma invenção qualquer. Depois de inventada as pessoas não saíram por aí fazendo gols de bicicleta, como hoje se usa telefone celular. Para usá-la é preciso ter a mesma perspicácia de quem a inventou, reinventá-la. Esperar o tempo certo, não ter gana demais. É preciso respeitar a vontade da ocasião, ou escutar o silencioso pedido da bola e suportar com leveza o peso de ter treinado sua vida toda para aquele momento.

E assim é a Copa do Mundo. Para os jogadores, títulos da Libertadores, Liga dos Campeões, Copa América ou Eurocopa parecem flexões matinais. E para nós, contempladores do futebol? Antes mesmo do primeiro toque na bola, há mais beleza na imagem do jogo. Um lance bonito torna-se mais plástico. E um gol de placa pode atravessar gerações.

Imaginem: um gol de bicicleta, oriundo de uma cobrança de escanteio. O jogador acerta a bola na entrada da grande área encaixando-a no ângulo direito do goleiro. Acreditem, por um capricho do destino, por uma curva de última hora que parecia brincadeira dos deuses, este gol desaconteceu na Copa de 94. O autor da jogada, para mim, seu inventor: o zagueiro norte-americano Lalas. Não havia visto nada igual.

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Confesso que minha apologia à Paulo Henrique Ganso parece um elogio ao futebol do passado. Que a frase de Nelson Rodrigues citada no último post é a coroação do meu discurso antimodernista, contra a velocidade, difamando a produtividade desenfreada, logo, desqualificada.  O verbo é mesmo esse: confessar. Pois meu elogio à lentidão de Forlán é quase uma justificativa para meu desleixo na frequência de publicações. Argumento muito usado pelas ciências humanas e filosofia: “qualidade é o que importa, não a quantidade”. Escorados nesse chavão podemos produzir poucas coisas de pouca qualidade.

Assim, dou início à seção “Recordar é viver”, comentando jogos antigos. Diria Sócrates, quando realmente houve futebol. É um pouco o que diz também Ugo Giorgetti numa coluna datada de 2008 sobre Alex, camisa dez do Fenerbahçe.  Aliás, o retrô está em voga. Camisas antigas mostram-se mais belas que as atuais. Supõe-se que os jogos antigos também o eram. Depois daquele Santos e Flamengo (4 x 5), nem José Trajano resistiu: “O futebol voltou, minha gente!”. Enquanto ele não volta outra vez, comento a final de 1958, disputada entre Brasil e Suécia. Mas adianto: não passei dos primeiros quinze minutos, quando um lance incrível requisitou-me atenção exclusiva.

O placar diz que foi um passeio do selecionado brasileiro: 5 X 2. Nesse, como em vários casos, o placar não mente. Mas o início do jogo contradiz o resto. A Suécia começou bem, muito bem. Com jogadas rápidas e incisivas. Produzindo aquele volume de jogo que faz do gol um detalhe prenunciado, a Suécia fez um a zero. Numa jogada sem plástica, com direito a drible e boa finalização.

O Brasil melhora após o gol, mas os contra-ataques suecos são recorrentes e perspicazes. Num deles acontece o dito lance. À altura do meio de campo, um lançamento pelo alto. O atacante sueco vazava a defesa brasileira para receber o passe e seguir livre em direção ao gol. Gol feito, pensaram os torcedores. Eu, já sabendo que o segundo tento sueco não sairia daquela jogada, aguardava numa tranquila curiosidade o desfecho do lance. Mérito do goleiro ou demérito do atacante? Nenhum dos dois.

Enquanto a bola viajava pelo alto, ávida para chegar aos pés do outro jogador, Bellini intercepta o lançamento. Com as mãos. As duas. Feito um goleiro que no tiro de canto sobe mais alto que todos, com os braços esticados, segurou bola. Prontamente a deixou no chão, pediu sinceras desculpas com as mesmas mãos. O juiz, que acompanhava de perto o lance, mandou o jogo prosseguir. E prosseguiu. Sem a menor reclamação dos jogadores suecos.

“Mão por querer”: lance que na pelada de fim de semana implicaria em penalidade máxima.

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A caminhada de Forlán

Com a velocidade que Forlán caminhava para bater o escanteio chego para comentar a final da Copa América. Fato passado, principalmente para nós brasileiros. Não para os uruguaios, que provavelmente alimentarão as cenas desta conquista por um bom tempo. E devem.

Suárez foi o melhor da competição. E concordo. Mas meu destaque vai para Diego Forlán. Ele, que foi eleito o melhor da Copa do Mundo de 2010, não repetiu sua brilhante atuação no mundial.

Em um jogo da primeira fase ele perdeu gols incríveis. Parecia até o Deivid. Entrevistado no fim do jogo, subliminarmente contestado, Forlán respondia com um leve sorriso no rosto. Não era ironia. Era leveza. Disse ao repórter que estava acostumado com isso. Tem dia que erramos tudo, noutro realizamos o impossível. Ali, naquele momento, transpirando tranquilidade, insinuou-me: seremos campeões.

Reparem: não se trata de desleixo. Parece. E muito. Na final contra o Paraguai. Forlán caminhava para bater o escanteio numa velocidade que incomodava. Inclusive o torcedor uruguaio. Não se trata de ganhar tempo, cera. No início do jogo, zero a zero, por volta dos dez minutos: escanteio para o Uruguai, Forlán caminhava lentamente para o tiro de canto. Parte final do jogo, três a zero para a celeste, Forlán caminha para o tiro de canto no mesmo ritmo de outrora. Os jogadores paraguaios, a torcida paraguaia, os argentinos ressentidos, ninguém, pode acusar Forlán de anti-jogo.

Eu, que havia admirado naquela entrevista uma segurança fora do comum, enxergava os passos lentos de Forlán como um desafio à uma época. Sem pressa, dizia ele, em cada passada. Sem correria desnecessária fez dois gols na final. Que ficaram ainda mais bonitos pelo contexto de contenção de força para o momento certo.

E o risco é grande. Se por acaso, como no jogo contra o Brasil, o Paraguai vence, a lentidão de Forlán seria enfatizada, elevada e massacrada. Para Diego o risco é um pouco menor, ele tem crédito, com os outros e consigo mesmo. Mas não é o caso do Ganso. Ontem, iniciou o jogo no banco. Não por acaso. Paulo Henrique Ganso no banco não é uma escolha do Mano, é sintoma de um ritmo de vida.

Acho a velocidade um prazer de cretinos. Ainda conservo o deleite dos bondes que não chegam nunca. (Nelson Rodrigues)

 

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