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Archive for dezembro \22\UTC 2011

É sério

Segundo Aristóteles a poesia é algo mais sério que a história. Justo pelo seguinte: a história diz as coisas que aconteceram e a poesia aquelas que poderiam acontecer. E mais: a poesia pode, inclusive, pautar-se em fatos ocorridos. Não deixará, por isso, de ser poesia. O filme The Damned United, que conta a história de Brian Clough, treinador inglês, não é um relato histórico.

Tenho dois pés atrás com filmes biográficos. Em geral preocupam-se em contar a história de uma personalidade através dos momentos marcantes de sua vida. São, noutras palavras, os melhores momentos do jogo. Nascimento, dificuldades na infância, adolescência, etc… Sucesso, crise, sucesso, crise; depende de cada caso. Termina com a morte. Ou começa com ela, não importa. De qualquer forma, é história.

Seria o caso de metrificar os relatos de Heródoto; nem por isso deixariam de ser, com ou sem metro, algum tipo de história (Aristóteles, Poética).

O maior mérito do filme não é seu desapego à linearidade do tempo ao narrar os acontecimentos da vida do treinador.  Gostei de seu desapego aos melhores momentos. Por exemplo: jogo decisivo, clássico, envolvendo vingança. Na verdade, é quando o time de Clough vence seu rival (até pouco tempo infinitamente superior) pela primeira vez. O filme não mostra o jogo, não mostra os lances da partida. Noutros casos até exibe as imagens reais, os gols, etc. Mas nesse caso, importantíssimo, não há uma cena sequer de futebol. Não mostra o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.

Clough não assistiu ao jogo. Enfurnou-se num quarto do estádio. Não viu, imaginou o jogo. Os cantos da torcida, gritos de gol, xingamentos, desenhavam campos de possibilidades em sua cabeça, sem que nenhum deles encerrasse o fluxo imaginário do treinador. E do espectador.  Soube o resultado da partida, 2 x 0, pelo sorriso de seu auxiliar técnico no fim do corredor do vestiário, depois do jogo.

O filme também não conta a fase mais impressionante de Clough: sete títulos pelo modesto Nottingham Forest, incluindo duas Champions League. A película termina quando essa fase brilhante do treinador se inicia. E não fica devendo por isso. Pelo contrário. No pouco que conta realiza o que mais importa: manter mantém viva a possibilidade de feitos  impressionantes acontecerem, tanto ontem como sempre.

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Sobrevivência é a palavra que traduz a campanha do Cruzeiro neste brasileirão. Quando o time foi eliminado da Libertadores, depois de uma campanha impecável, publiquei um texto em homenagem à equipe mineira. Por pouco, acertei. O Cruzeiro não morreu na praia.

Nem eu. A frequência semanal de publicações há de retornar.

Minas Gerais não tem mar

O esclarecimento das coisas é um perigo para a beleza das palavras. E onde há gente, há luz. De tanto se falar dois versos de Fernando Pessoa, como se fossem o que de mais óbvio há nesse mundo, as palavras perderam seu devido brilho. “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Sabe-se mesmo de onde isso provém? (Sem recriminação) Uma em cada dez pessoas que as distribui talvez saiba o título do poema. E esse não é um dos casos mais graves. Como bem nos lembrou Popst, a frase de Shakespeare que brota até mesmo da boca de um cavalo, diante do inexplicável, hora alguma classifica a nossa filosofia de vã.

Se alguém reclama da falta de mar no interior, é porque nunca se deu conta que o céu estrelado dos lugares não banhados pelo oceano costuma ser infinitamente mais belo, pleno e brilhante. O esclarecimento das coisas também é um perigo para a beleza de um céu estrelado.

É certo que há lugares onde não há mar nem céu estrelado. Também existem aqueles onde há mar e um céu repleto de estrelas. Mas esses últimos são exceções, que existirão cada vez menos. Prefiro falar aqui de outra exceção, mais persistente.

Desde pequeno conheço cinco estrelas que sustentam seu brilho mesmo sob forte presença de luz. Arrisco dizer que diante do perigo essas estrelas brilham ainda mais. Pode-se ascender dezenas desses refletores de estádio que a beleza delas não diminui. Ao contrário, aumenta. Alguém diria que é por conta da forte consistência do azul celeste que as abriga. Tenho minhas dúvidas. Tanta perseverança assim diante do perigo só foi vista uma vez, nas grandes navegações. Quem compara as viagens espaciais a esse feito se engana profundamente. Hoje, o viajante, antes de viajar, já conhece a composição química da matéria que sujará sua bota. Antes, não.

Levando em conta uma das falas mais verdadeiras que já apareceu por aqui, que o futebol é uma caixinha de surpresas, hão de concordar comigo que a bravura das cinco estrelas brilhando mesmo diante de toda a luz do mundo é a mesma dos navegantes. Até porque os imigrantes italianos não vieram de avião para o Brasil. Minas Gerais não tem mar. Ainda bem. Só assim um reflexo dele pôde permanecer por lá. Não vos pareceu que os grandes títulos foram disputados em um pedaço de terra cercado por água?

Se a cor é azul celeste ou azul marinho, pouco importa. Sei que por conta desse azul, há cinco estrelas que, juntas, jamais foram vencidas, não obstante tão combatidas, como diz o hino em sua homenagem. E outro hino confirma: sua imagem ainda resplandece.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu

Fernando Pessoa

Trecho retirado do poema Mar português.

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