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Archive for março \24\UTC 2012

Vai começar o futebol

É primavera. As pessoas andam mesmo mais sorridentes pela rua. Pedalando também. E agora não mais esbarro em jogo de Bandy nas caminhadas de sábado. Dessa vez para curar ressaca, preferi andar até a estação de metrô seguinte. No caminho, como é de costume aqui em Estocolmo, algo acontece. Avistei de longe refletores, melhor, torres com iluminação. Pensei: campo de futebol. Mas podia ser campo de um jogo qualquer e esquisito, como deve ser aquele praticado com a bola mais estranha que vi na vida, carregada por um dos jogadores no pé da arquibancada. Enfim, o caminho naquela direção me pareceu interessante de qualquer forma, um parque aparecia no horizonte

De repente, barulho de gente chutando bola. Uma olhada e vi gente treinando futebol. É primavera. O reinício da temporada se aproxima. E o que seria uma olhada entre muros de uma pequena parte do treino, tornou-se o objetivo principal daquela caminhada matinal de sábado, depois que vi pessoas sentadas na arquibancada do mini-estádio, com cobertura até. Procurei a entrada. Achei sem maiores dificuldades e entrei. Suécia tem se mostrado para mim como o país das portas abertas, mesmo depois de presenciar alguns vetos de imigrantes em entradas de boate.

Até que os suecos levam jeito pra coisa. Logo vi que não eram jogadores profissionais. Tinham entre 16 e 18 anos, talvez. Mas a forma de bater na bola já garantia que não se tratavam de amadores. Toques de trivela, lançamentos longos e precisos. Boas finalizações. Depois descobri: eram equipes juniores do Vasalunds IF e (vejam vocês) do nelsonrodriguiano AIK. E não era treino, mas aquecimento. Teve jogo.

Árbitros e jogadores posicionados para o pontapé inicial. “Isso não vai dar certo”. Foi o que eu pensei quando me dei conta que o lateral direito do Vasalunds vestia a camisa 10. Claro, depois do apito inicial, os toque de trivela, lançamentos precisos, boas finalizações e lençol aplicado de brincadeira, mas com com precisão, dão lugar a chutões, trombadas, domínio errado e impedimentos infantis. Mas tiveram bons lances, como tem no campeonato capixaba. O segundo gol do Vasalunds conteve uma jogada de efeito do ponta esquerda e uma firme finalização de cabeça do camisa 10 que, diga-se de passagem, era o mais tranquilo em e sensato em campo, daí o número de seu uniforme.

Fim de primeiro tempo, Vasaluns 2, AIK 0. Na época de Nelson Rodrigues o time era o campeão nas bandas de cá. Mesmo assim mostrou-se digno de pena diante do Flamengo. Sugestionado, comecei a sentir peno do AIK também. Nem tanto quanto no longíquo Brasil (de 1957), mas aqui também o time mostrava-se inferior. Inclusive pelas terríveis finalizações nos gols perdidos no segundo tempo. Ao fim, todos clamávamos pelo gol de honra, que veio por volta dos quarenta e dois minutos da etapa final. Gol feio, num bate-e-rebate depois da cobrança de escanteio.

Terminado o jogo, comprei uma caneca do AIK, para dar uma força. Não, não estava sendo vendida numa banquinha na beirada do campo. Continuando a caminhada deparei-me com o estádio onde joga o time profissional. Estádio onde jogou Garrincha, Didi, Pelé, Zagallo, em 1958. Moro a dez minutos do campo onde o Brasil conquistou o mundo pela primeira vez. Na loja do time, peguei o calendário dos jogos. Já descobri que está em segundo lugar na liga, cinco pontos atrás do primeiro. Que tem um brasileiro no time. Dois argentinos, sendo um o camisa dez. Sim, vai começar o futebol. Mesmo se ele for o lateral esquerdo.

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Porque estou na Suécia. Tanto que ontem cedo vi uma senhora usando um cachecol do AIK.

Nossos irmãos suecos

Para o futebol carioca o último domingo foi, na verdade, extraordinário. Íamos ver o AIK, time sueco que, segundo nós, da imprensa, do rádio e da TV, é o campeão do seu país. Mas o título pouco importa. O que vale, no AIK, é a sua cordial, amorável e loura condição sueca. Ora, o sueco representa o antibrasileiro por excelência. Temos a impressão de que, sob o ponto de vista técnico, tático e humano, ele é um inefável doce de côco, um cândido arroz-doce. Nenhuma malícia, nenhuma maldade, nenhuma violência. Pois bem: – essa visão lírica do homem e do futebol suecos devia ter enchido o Maracanã, domingo. Mas um espetáculo esportivo comporta ironias inesperadas e cruéis. O maior estádio do mundo apanhou um público de pelada. Os que lá compareceram eram movidos pelo hábito, pelo vício, pelo automatismo futebol musical. Os outros ficaram, em casa, ouvindo rádio, vendo televisão. Mas justiça se faça ao instinto popular. Sim, amigos: – a estréia do louro, do branquíssimo AIK não teve as características que sacodem a multidão nos seus alicerces. De resto, o futebol dos visitantes caracteriza-se por uma ingenuidade emocionante. Essa mistura de molecagem e ferocidade, de virtuosismo e má-fé, que faz do futebol brasileiro, uruguaio e argentino um show delicioso, não existe no purificado futebol sueco. Desde os primeiros momentos da peleja que eu, na tribuna de imprensa, fiquei ruminando um problema extra-esportivo, ou seja, o prejuízo que vai resultar dessa visita tão amiga, tão fraterna. Já vimos que, antes do jogo, ninguém acreditava no futebol da Suécia. E, agora, depois do que vimos, domingo, no Maracanã? Os homens perderam, só, de 5 x 3. Aparentemente não existe, no citado escore, nada que desmoralize um vencido. Quem perde hoje de 5 x 3 pode, perfeitamente, vencer amanhã. O trágico na batalha foi a atuação dos nossos adversários e a nossa própria atuação. A fisionomia definitiva do match foi a seguinte: – uma quase cômica superioridade do Flamengo. Embora com desfalques medonhos e com um quadro que incluía sete aspirantes, o Rubro-negro foi dono do campo. E com uma agravante: – era uma equipe que não sabia o que fazer de tanta superioridade e que se envergonhava de manifestá-la. Eu sempre digo que uma peleja não é o seu placar. Muitas vezes, o que importa é que o placar não diz, o que o placar não confessa. Por exemplo: os 5 x 3 de domingo não dão uma idéia, nem aproximada, do que foi o jogo. O Flamengo não venceu de mais porque não quis. Para não ampliar o marcador, que ele fez? Driblava a torto e a direito, retinha a bola, complicava, perdia-se num premeditado tico-tico. Não quis, em momento nenhum da partida, aniquilar o adversário, humilhá-lo, ofendê-lo. Nada disso, e nem ficaria bem ao Flamengo, no seu papel de anfitrião, castigar tanto um convidado. Poderão objetar que, no segundo tempo, o cândido AIK reapareceu com mais élan. Sim, atirou-se mais pra frente. Mas vamos reconhecer: – era, se assim posso dizer, uma agressividade consentida. Os visitantes podiam entrar porque o quadro cariocca abria-lhes as portes, com a mais clara e taxativa das cordialidades. Só imagino se os nossos jogassem pra valer: – teríamos tido, domingo, no Maracanã, um escore trágico. Mas foi bom assim, isto é, foi bom o limite dos 5 x 3. O próprio público não queria o massacre do AIK. Basta dizer o seguinte: – era tão cruel a superioridade rubro-negra que, a partir dos primeiros vinte minutos, o Maracanã começou a aplaudir, alegremente, os suecos. Sempre que eles realizavam uma jogada menos ruim, a torcida rubro-negra vibrava. Eu estava vendo a hora em que o próprio Flamengo acabaria perpetrando um gol contra, para adoçar a boca dos visitantes. Sim, amigos, os suecos são bons. Pena é que a bola os atrapalhe.

12/01/1957

Texto retirado do livro O berro impresso das manchetes, editora Agir.

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Verde e branco

Num sábado qualquer, procurando resolver pendências nem tão urgentes assim, resolvi seguir pessoas que pareciam ir para algum tipo de jogo. Cachecol com as cores do time. Faixas e casacos com as cores verde e branco. Depois de uma hesitação, pois talvez não estivessem indo e sim voltando do jogo, recompus-me e segui o montante de gente que me fez insistir no plano improvisado de sábado.

Dei num campo de hóquei. Pela segunda vez. Estive ali por conta das caminhadas noturnas nos meus primeiros dias de Estocolmo. No primeiro bairro: Skanstull. Nesta noite, uns treze meninos, em forma de roda, tentavam manter uma bola de futebol no alto; a famosa altinha. Nelson Rodrigues tinha uma frase para o que eu pensava naquele momento, descobri esses dias: “Os suecos são bons. Pena que a bola os atrapalhe”. Pensei também que aqueles meninos não eram aspirantes de um time de futebol, obviamente.

Tampouco eram aspirantes de um time de hóquei. É outro esporte. Chama-se bandy. Onze para cada lado. Dois tempos de quarenta e cinco minutos. Tem impedimento. Não se joga com um disco e sim com uma pequena bola laranja. Descobri isso no sábado depois de seguir aquelas pessoas, e de ter a sorte de tratar-se excepcionalmente de uma partida gratuita, que nos dias normais custa 54 reias.

À parte o frio, foi como ver futebol. Movimentação um pouco diferente, claro. Pela minha incompreensão das jogadas mais executadas e da função de cada um ali, parecia que ambas ou todas as equipes adotavam a tática do carrossel holandês. Com pouco tempo foi possível descobrir as jogadas características do esporte e aproximá-lo mais do futebol. O clima de tensão e expectativa dos torcedores quando um jogador estava prestes a dominar com um taco um lançamento pelo alto, o desabafo para cima do juiz, as palmas depois de uma boa jogada que nem resultou em gol, compreendi o quanto eu gostava de futebol. E o quanto ele me fazia falta. Ou seria um gosto que se sustentava em si mesmo?

Sim, um jogo de bandy é bonito. A troca de passes, a expectativa quando um jogador entra costurando na linha de fundo e o drible rápido para cima do goleiro. Os movimentos dos jogadores podem entrenter e encantar até mais do que no futebol. Mas tem uma coisa que acaba com a disputa antes dela começar, ao menos para mim. Não deve ter sido por acaso que justo neste dia as duas equipes trajavam uniformes verde e branco. Pois, acho o verde mais bonito que o branco.

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