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Archive for the ‘Armando Nogueira’ Category

Os campos de futebol amanheceram menos poéticos nessa segunda-feira. O jornalista Armando Nogueira nos deixou vitimado por um câncer.

Não é exatamente o meu perfil lamentar a morte. Por diversas vezes falei do tema neste blog. A morte é conseqüência do jogo. É o apito final inerente ao apito inicial, mas a tristeza pela partida do grande mestre é inevitável.

Armando sempre enxergou o futebol de modo diferente. Pra além dos passes e dos chutes. Época boa em que era possível vê-lo na TV aberta traduzindo os jogos em versos. Era como se o futebol ganhasse um tempo extra. Era como se algum cartola da International Board determinasse que depois de dois tempos de prosa haveria um de poesia.

Esse blog, pelada desajeitada entre o futebol e o lirismo, não existiria sem a inspiração do grande Armando Nogueira. Inspiração que, aliás, falta em nossos craques, pobres analfabetos da história de nosso futebol, cegos para a própria arte que criam.

A luz de cada refletor é pequena pra escuridão desse dia.

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garrincha_copa_58

Lendo a coletânea de crônicas "O gol é necessário" de Paulo Mendes Campos (obrigado, Bernardo!) encontrei uma definição genial sobre o que é Mané Garrincha. A definição, aliás, nem é do autor. É mais um daqueles grandes pensamentos de Armando Nogueira:

“o drible é, em essência, fingir que se vai fazer uma coisa e fazer outra; fingir, por exemplo, que se vai sair pela esquerda, e sair pela direita. Pois o Garrincha é a negação do drible. Ele pega a bola e pára; o marcador sabe que ele vai sair pela direita; o público todo sabe que ele vai sair para a direita; seu Mané mostra mais uma vez que vai sair pela direita; a essa altura, a convicção do marcador é granítica: ele vai sair pela direita; Garrincha parte e sai pela direita. Um murmúrio de espanto percorre o estádio: o esperado aconteceu, o antônimo do drible aconteceu”.

A genialidade do Mané era tamanha que a obviedade de seus dribles converteu-se num atributo positivo. É aterrador pensar que o drible estava tão acima do driblado, que enganá-lo era desnecessário. Garrincha era tão instintivo e tão imparável,  que só pode ser catalogado hoje como uma força da natureza.

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Na eminência do nada a dizer, a placa salvadora é levantada: no blog saem momentaneamente (não se animem) os textos de Alex Popst e entra um do mestre Armando Nogueira. A arquibancada agradece aos deuses pela feliz substituição.

Pelada de Subúrbio

Nova Iguaçu, quatro horas da tarde, sábado de sol. Dois times suam a alma numa pelada barulhenta; o campo em que correm os dois times abre-se como um clarão de barro vermelho cercado por uma ponte velha, um matagal e uma chácara silenciosa, de muros altos. A bola, das brancas, é nova e rola como um presente a encher o grande vazio de vidas tão humildes que, formalmente divididas, na verdade, juntam-se para conquistar a liberdade na abstração de uma vitória. Um chute errado manda a bola, pelos ares, lá nos limites da chácara, de onde é devolvida, sem demora, por um arremesso misterioso. Alguns minutos mais tarde, outra vez a bola foi cair nos terrenos da chácara, de onde voltou lançada com as duas mãos por um velhinho com jeito de caseiro. Na terceira, a bola ficou por lá; ou melhor, veio mas, cinco minutos depois, embaixo do braço de um homem gordo, cabeludo, vestido numa calça de pijama e nu da cintura para cima. Era o dono da chácara. A rapaziada, meio assustada, ficou na defensiva, olhando: ele entrou, foi andando para o centro do campo, pôs a bola no chão e, quando os dois times ameaçavam agradecer, com palmas e risos, o gesto do vizinho generoso, o homem tirou da cintura um revólver e disparou seis tiros na bola. No campo, invadido pela sombra da morte, só ficou a bola, murcha.

P.S.: Este blogueiro registra nesse post sua admiração ao Botafogo por ter inaugurado sua novíssima sala de impresa com o nome do magnifico Armando Nogueira. Parabéns!

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