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A alguns metros de mim, jogadores do Real Madrid faziam o aquecimento chutando bolas para o gol. Cristiano Ronaldo, Higuaín, Kaká, Özil.

Não acho que os goleiros estavam fazendo corpo mole. Em geral, chutes fortes no ângulo ou rente ao gramado, ao pé da trave. Raramente, um bola por cima do gol. Não vi o Cristiano Ronaldo errar um chute. Özil tocou uma por cobertura, “como quem chupa um chicabon”. Acertou a trave direita do goleiro.

Mais ao fundo o time do Barcelona não impressionava como o Real, fazia alongamento. Os times voltaram para os vestiários. Alguns minutos depois, o pontapé inicial.

Poucos segundos de jogo e Piqué deixa passar a bola para o goleiro sem notar que Higuaín antecipou o lance. Ele e o arqueiro. A rede que que foi tantas vezes balançada minutos atrás, no aquecimento, permaneceu intacta. Higuaín tirou do goleiro, mas a bola saiu à esquerda da meta.

E não foi um lapso. O Real Madrid começou melhor que o Barcelona. Kaká aparecia bem no jogo. Mas um jogador, a meu ver, dava lições de futebol: Özil. Ele, que foi crucificado por sua “lentidão” na derrota para o veloz time do Barcelona, pelo campeonato espanhol, mostrava que não é tão inofensivo assim. Depois de um corte em cima de Busquets, bateu de esquerda. Como no aquecimento, a bola acertou a trave, dessa vez o travessão. O recado foi dado. Não caberia à realeza um papel meramente figurativo.

Tampouco o caberia ao Barcelona. O Real jogava contra Puyol, Piqué, Daniel Alves, Abildal, Busquets, Xavi, Iniesta, Fábregas, Messi, Sanchés. Mesmo sem as jogadas incisivas, a equipe catalã trocava passes como lhe é de costume, quer dizer, surpreendentemente. Fui tão surpreendido quanto devem seus adversários. O time começa a trocar passes numa parte do campo. Passes curtos, rápidos, de primeira, que exercem um tipo de magnetismo. Atrai tanto o olhar dos torcedores quanto dos marcadores adversários. De repente, Messi vira o jogo, num passe longo pelo alto. Juro que pensei: pra ninguém. Olhei e não vi ninguém. Eis que Daniel Alves recebe a bola sozinho, com meio campo à sua disposição.

No primeiro tempo, a equipe teve sessenta por cento de posse de bola. E fez dois gols. Primeiro, o magnetismo e bom passe de Messi fizeram Pedro ter tranquilidade suficiente para finalizar no canto direito de Casillas. Segundo, Daniel Alves acertou um chute ainda mais impressionante que os do aquecimento do Real Madrid. Estádio vibrando, mas não ao ponto de se abraçar desconhecidos, como no Brasil. No segundo gol, interagi um pouco com uma senhora catalã. Fim de primeiro tempo. Os torcedores turistas pediam mais três. Ela já transparecia alguma inquietação.

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Eu, garoto desprivilegiado, criado na periferia de uma cidade do nordeste. De acordo com a geografia oficial, Espírito Santo não é nordeste. E economicamente tem mostrado-se cada vez mais distante de seus pseudo conterrâneos. Mas em termos futebolísticos o estado é deveras mais árido que o nordeste.

Sobrevivi assistindo a jogos como Serra versus Jaguaré, Vitória contra Vilavelhense. Sequer peguei a fase de decadência de Rio Branco e Desportiva Ferroviária. Quando dei por mim, ambos já estavam no limbo do futebol nacional.

Parecendo uma espécie de programa paleativo do governo federal, alguns times grandes do Brasil excurcionavam por lá. Tive o então privilégio de ver Flamengo contra Vitória da Bahia. O Flamengo, imaginem só. E com o melhor ataque do mundo: Sávio, Romário e Edmundo. Gente entrando pelo ladrão. Lembro-me de ter entregado o ingresso e passado por cima de uma grade (que sufoco, não foi, Agnaldo?). Fim de jogo: um a zero para o Viória, que deve ter se sentido em casa. Primeira lembrança de sentimento de prazer pela derrota e infelicidade alheia; agora me dou conta que o espírito de Juliana circula até mesmo nos mais jovens.

Esse certamente não veio de um programa do governo. Deve ter vindo dos céus. Vi meu time de coração jogar contra o Flamengo, no estádio do Rio Branco. Ataque formado por Paulinho Mclaren e Marcelo Ramos. Salvo engano, um gol de cada. Dois a zero para o Cruzeiro, com direiro a trilha sonora da torcida máfia azul.

***

Eu, rapaz privilegiado, morando numa das cidades mais caras da Europa, num apartamento só para mim. Pago com dinheiro da bolsa de estudos fornecida pelo governo federal, aquele mesmo que parecia suprir minha carência futebolística do passado.

Mas em Estocolmo não tem futebol de primeiro mundo. No inverno, nem de terceiro. Mas Estocolmo fica na Europa e nela tem futebol de primeiro mundo. Como se eu viajasse de Vitória para Natal, só que pagando mais barato, é possível ir à Barcelona e assistir, por exemplo, o clássico espanhol.

Para tanto, basta pegar o metrô na estação Näckrosen, que fica a cerca de trezentos metros da minha casa, em direção à T-Centralen. Lá é preciso pegar um trem cujo destino final é Märsta. Na estação Upplands Väsby troca-se de trem para chegar ao aeroporto. É preciso, inclusive, que o trem cujo horário lhe faria chegar com alguma tranquilidade no aeroporto seja cancelado. E que o seguinte demore cerca de trinta minutos para passar: tempo suficiente para colocar em risco seu voo para a Espanha. Assim, basta sair da estação procurando o centro deste lugar por demais periférico, em busca de um táxi. Pergunte ao gari sueco por um cab. Se for necessário, diga táxi. Encontrado o veículo, por segurança pergunte em torno de quanto fica o valor. Mas não se preocupe, o taxista turco faz exatamente o trajeto mais curto e chega ao aeroporto em quinze minutos: o trem não teria passado na estação ainda. Faça o check-in numa máquina, com alguma tranquilidade, e embarque no voo. Durante a viagem talvez seja necessário pedir um vinho com azeitonas para relaxar. Descanse um pouco.

A chegada em Barcelona pode ser às 19h, já que o jogo é as 22h. No aeroporto, pegue o ônibus 56, em direção à Plaza España. Sim, perca o ônibus por questão de segundos. O próximo deve ser vinte minutos depois, às 19h45. Não preocupe: Plaza España é o último ponto, e estará nele em cerca de 30 minutos. Chegando na praça pegue o metrô, que não é tão simples como de costume. Ande algumas estações na linha vermelha e na estação Plaza Sens troque para a linha azul, direção Cornella. Salte em Badal, se perca um pouco para saber o lado certo para caminhar em direção à rua do albergue. Algumas perguntas, tentativas que contrariam as respostas e pronto. Aí está: Hostel One Sants. Toque a campainha. Nano, argentino que vive em Barcelona há dois anos, hei de atendê-lo com a melhor cara do mundo, dar a chave do quarto e uma toalha de brinde (um banho por ser necessário por conta de algumas corridas). Pergunte pelo ingresso que você comprou pela internet, pediu para entregar no albergue e confiou plenamente naqueles que o receberiam e guardariam. Pronto, envelope em mãos, lacrado, com o ingresso dentro.

Aí é só fazer uma amizade relâmpago com dois argentinos que vão ao jogo. Caminhe cerca de dois quarteirões e aviste o Camp Nou, de longe. Mesmo que seu bilhete seja na arquibancada norte, entre ali mesmo e dê a volta por dentro do estádio, como lhe recomendará alguém no albergue. Portão 83. Entre. E verás que está muito mais perto do campo que imaginava. Sim, o Barcelona existe. Ainda está um pouco longe, do outro lado do campo. Porém mais perto do que nunca.

Onde a coruja dorme

Suécia não é o país do futebol. Mas, por acaso, o primeiro monumento com o qual me deparei – ou primeiro que reparei – foi uma escultura que descrevi assim: um homem chutando uma bola com o pé direito. Outra com o pé esquerdo, de calcanhar, cabeceando uma terceira. Tudo ao mesmo tempo. Mais ao lado, uma trave de ferro polido, quiçá do tamanho real, com uma bola encaixada lá, no ângulo direito de quem chuta. A expressão para brasileiros é quase imediata: lá, onde a coruja dorme.

Se um jogador do nosso time faz um gol acertando essa parte da baliza, ou se nosso time sofre um gol assim, podemos usar a expressão para comentar o lance. Até mesmo no caso de explicação de gols de terceiros. Mas quando ela nos alcança durante a contemplação de uma escultura, numa cidade europeia, à noite, e com temperatura abaixo de zero, é natural refletir sobre a expressão. Hegel bem disse: a ave de Minerva alça voo quando o dia chega ao seu fim.

Penso que a expressão se refere a lugares pouco frequentados pela bola. Lá pode-se até dormir a tranquilamente. Há pouca perturbação, pouco reboliço. A Suécia é um pouco assim, imagino. Já que sua capital, Estocolmo, é. Cheguei do aeroporto na estação central da cidade às oito e meia da noite e gastei algum tempo para achar um estabelecimento aberto em busca de informação. Uma semana de albergue e não esbarrei com um brasileiro sequer. Exemplar também é o volume da música no estabelecimento. Alta o suficiente para se ouvir, baixa o suficiente para se conversar.

Pouco reboliço também em termos futebolístico. O campeonato aqui anda parado. Não funciona no inverno. Mas isso não quer dizer que o blog hibernará. Se aqui é o lugar onde a coruja dorme, é aqui também que ela acorda. E quando algo acontece, nesse lugar da trave, geralmente merece admiração. Qual a estátua do homem chutando três ou quatro bolas, fazendo o possível e o impossível, tudo ao mesmo tempo, num só instante.

É sério

Segundo Aristóteles a poesia é algo mais sério que a história. Justo pelo seguinte: a história diz as coisas que aconteceram e a poesia aquelas que poderiam acontecer. E mais: a poesia pode, inclusive, pautar-se em fatos ocorridos. Não deixará, por isso, de ser poesia. O filme The Damned United, que conta a história de Brian Clough, treinador inglês, não é um relato histórico.

Tenho dois pés atrás com filmes biográficos. Em geral preocupam-se em contar a história de uma personalidade através dos momentos marcantes de sua vida. São, noutras palavras, os melhores momentos do jogo. Nascimento, dificuldades na infância, adolescência, etc… Sucesso, crise, sucesso, crise; depende de cada caso. Termina com a morte. Ou começa com ela, não importa. De qualquer forma, é história.

Seria o caso de metrificar os relatos de Heródoto; nem por isso deixariam de ser, com ou sem metro, algum tipo de história (Aristóteles, Poética).

O maior mérito do filme não é seu desapego à linearidade do tempo ao narrar os acontecimentos da vida do treinador.  Gostei de seu desapego aos melhores momentos. Por exemplo: jogo decisivo, clássico, envolvendo vingança. Na verdade, é quando o time de Clough vence seu rival (até pouco tempo infinitamente superior) pela primeira vez. O filme não mostra o jogo, não mostra os lances da partida. Noutros casos até exibe as imagens reais, os gols, etc. Mas nesse caso, importantíssimo, não há uma cena sequer de futebol. Não mostra o que aconteceu, mas o que poderia ter acontecido.

Clough não assistiu ao jogo. Enfurnou-se num quarto do estádio. Não viu, imaginou o jogo. Os cantos da torcida, gritos de gol, xingamentos, desenhavam campos de possibilidades em sua cabeça, sem que nenhum deles encerrasse o fluxo imaginário do treinador. E do espectador.  Soube o resultado da partida, 2 x 0, pelo sorriso de seu auxiliar técnico no fim do corredor do vestiário, depois do jogo.

O filme também não conta a fase mais impressionante de Clough: sete títulos pelo modesto Nottingham Forest, incluindo duas Champions League. A película termina quando essa fase brilhante do treinador se inicia. E não fica devendo por isso. Pelo contrário. No pouco que conta realiza o que mais importa: manter mantém viva a possibilidade de feitos  impressionantes acontecerem, tanto ontem como sempre.

Sobrevivência é a palavra que traduz a campanha do Cruzeiro neste brasileirão. Quando o time foi eliminado da Libertadores, depois de uma campanha impecável, publiquei um texto em homenagem à equipe mineira. Por pouco, acertei. O Cruzeiro não morreu na praia.

Nem eu. A frequência semanal de publicações há de retornar.

Minas Gerais não tem mar

O esclarecimento das coisas é um perigo para a beleza das palavras. E onde há gente, há luz. De tanto se falar dois versos de Fernando Pessoa, como se fossem o que de mais óbvio há nesse mundo, as palavras perderam seu devido brilho. “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”. Sabe-se mesmo de onde isso provém? (Sem recriminação) Uma em cada dez pessoas que as distribui talvez saiba o título do poema. E esse não é um dos casos mais graves. Como bem nos lembrou Popst, a frase de Shakespeare que brota até mesmo da boca de um cavalo, diante do inexplicável, hora alguma classifica a nossa filosofia de vã.

Se alguém reclama da falta de mar no interior, é porque nunca se deu conta que o céu estrelado dos lugares não banhados pelo oceano costuma ser infinitamente mais belo, pleno e brilhante. O esclarecimento das coisas também é um perigo para a beleza de um céu estrelado.

É certo que há lugares onde não há mar nem céu estrelado. Também existem aqueles onde há mar e um céu repleto de estrelas. Mas esses últimos são exceções, que existirão cada vez menos. Prefiro falar aqui de outra exceção, mais persistente.

Desde pequeno conheço cinco estrelas que sustentam seu brilho mesmo sob forte presença de luz. Arrisco dizer que diante do perigo essas estrelas brilham ainda mais. Pode-se ascender dezenas desses refletores de estádio que a beleza delas não diminui. Ao contrário, aumenta. Alguém diria que é por conta da forte consistência do azul celeste que as abriga. Tenho minhas dúvidas. Tanta perseverança assim diante do perigo só foi vista uma vez, nas grandes navegações. Quem compara as viagens espaciais a esse feito se engana profundamente. Hoje, o viajante, antes de viajar, já conhece a composição química da matéria que sujará sua bota. Antes, não.

Levando em conta uma das falas mais verdadeiras que já apareceu por aqui, que o futebol é uma caixinha de surpresas, hão de concordar comigo que a bravura das cinco estrelas brilhando mesmo diante de toda a luz do mundo é a mesma dos navegantes. Até porque os imigrantes italianos não vieram de avião para o Brasil. Minas Gerais não tem mar. Ainda bem. Só assim um reflexo dele pôde permanecer por lá. Não vos pareceu que os grandes títulos foram disputados em um pedaço de terra cercado por água?

Se a cor é azul celeste ou azul marinho, pouco importa. Sei que por conta desse azul, há cinco estrelas que, juntas, jamais foram vencidas, não obstante tão combatidas, como diz o hino em sua homenagem. E outro hino confirma: sua imagem ainda resplandece.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu

Fernando Pessoa

Trecho retirado do poema Mar português.

Idealizada há algum tempo, a seção “Recordar é sobreviver” faz sua estreia no blog. Artifício também conhecido como reblog. É isso mesmo. Em temporadas de baixa inspiração repete-se os melhores momentos do passado. Aproveitarei algum acontecimento atual como ensejo, na melhor das hipóteses. No caso de hoje, o gol de bicicleta de Leandro Damião.

Amor, gol de bicicleta e Copa do Mundo (por Bernardo Boelsums)

No livro Cartas a um jovem poeta, palavras de Rainer Maria Rilke: amar exige uma força e delicadeza tão grandes que todas as outras ocupações parecem um estágio preliminar.

Suspeito que o mesmo se passe com o gol de bicicleta. Conseguir três embaixadinhas seguidas, matar uma bola no peito, dominar um passe, dar um passe, assistir a um craque em campo, em tudo isso subsiste um treinamento para dar uma bicicleta. Engatinhar, andar, equilibrar-se numa perna só, pular, dar cambalhotas, tudo isso também. O golpe certeiro de uma bicicleta precisa carregar um passado imenso. E não se trata de um passado de treinamentos explícitos dessa jogada.

Para Nelson Rodrigues, Leônidas da Silva a inventou. A partida: Brasil e Argentina, em São Januário. Eduardo Galeano atribui a patente ao chileno Ramón Unzaga, que a criou no campo do porto chileno de Talcahuano. Acertaram ambos. A jogada não é uma invenção qualquer. Depois de inventada as pessoas não saíram por aí fazendo gols de bicicleta, como hoje se usa telefone celular. Para usá-la é preciso ter a mesma perspicácia de quem a inventou, reinventá-la. Esperar o tempo certo, não ter gana demais. É preciso respeitar a vontade da ocasião, ou escutar o silencioso pedido da bola e suportar com leveza o peso de ter treinado sua vida toda para aquele momento.

E assim é a Copa do Mundo. Para os jogadores, títulos da Libertadores, Liga dos Campeões, Copa América ou Eurocopa parecem flexões matinais. E para nós, contempladores do futebol? Antes mesmo do primeiro toque na bola, há mais beleza na imagem do jogo. Um lance bonito torna-se mais plástico. E um gol de placa pode atravessar gerações.

Imaginem: um gol de bicicleta, oriundo de uma cobrança de escanteio. O jogador acerta a bola na entrada da grande área encaixando-a no ângulo direito do goleiro. Acreditem, por um capricho do destino, por uma curva de última hora que parecia brincadeira dos deuses, este gol desaconteceu na Copa de 94. O autor da jogada, para mim, seu inventor: o zagueiro norte-americano Lalas. Não havia visto nada igual.

Confesso que minha apologia à Paulo Henrique Ganso parece um elogio ao futebol do passado. Que a frase de Nelson Rodrigues citada no último post é a coroação do meu discurso antimodernista, contra a velocidade, difamando a produtividade desenfreada, logo, desqualificada.  O verbo é mesmo esse: confessar. Pois meu elogio à lentidão de Forlán é quase uma justificativa para meu desleixo na frequência de publicações. Argumento muito usado pelas ciências humanas e filosofia: “qualidade é o que importa, não a quantidade”. Escorados nesse chavão podemos produzir poucas coisas de pouca qualidade.

Assim, dou início à seção “Recordar é viver”, comentando jogos antigos. Diria Sócrates, quando realmente houve futebol. É um pouco o que diz também Ugo Giorgetti numa coluna datada de 2008 sobre Alex, camisa dez do Fenerbahçe.  Aliás, o retrô está em voga. Camisas antigas mostram-se mais belas que as atuais. Supõe-se que os jogos antigos também o eram. Depois daquele Santos e Flamengo (4 x 5), nem José Trajano resistiu: “O futebol voltou, minha gente!”. Enquanto ele não volta outra vez, comento a final de 1958, disputada entre Brasil e Suécia. Mas adianto: não passei dos primeiros quinze minutos, quando um lance incrível requisitou-me atenção exclusiva.

O placar diz que foi um passeio do selecionado brasileiro: 5 X 2. Nesse, como em vários casos, o placar não mente. Mas o início do jogo contradiz o resto. A Suécia começou bem, muito bem. Com jogadas rápidas e incisivas. Produzindo aquele volume de jogo que faz do gol um detalhe prenunciado, a Suécia fez um a zero. Numa jogada sem plástica, com direito a drible e boa finalização.

O Brasil melhora após o gol, mas os contra-ataques suecos são recorrentes e perspicazes. Num deles acontece o dito lance. À altura do meio de campo, um lançamento pelo alto. O atacante sueco vazava a defesa brasileira para receber o passe e seguir livre em direção ao gol. Gol feito, pensaram os torcedores. Eu, já sabendo que o segundo tento sueco não sairia daquela jogada, aguardava numa tranquila curiosidade o desfecho do lance. Mérito do goleiro ou demérito do atacante? Nenhum dos dois.

Enquanto a bola viajava pelo alto, ávida para chegar aos pés do outro jogador, Bellini intercepta o lançamento. Com as mãos. As duas. Feito um goleiro que no tiro de canto sobe mais alto que todos, com os braços esticados, segurou bola. Prontamente a deixou no chão, pediu sinceras desculpas com as mesmas mãos. O juiz, que acompanhava de perto o lance, mandou o jogo prosseguir. E prosseguiu. Sem a menor reclamação dos jogadores suecos.

“Mão por querer”: lance que na pelada de fim de semana implicaria em penalidade máxima.