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Posts Tagged ‘Armando Nogueira’

Ele está de passagem pelo Brasil. Ingrato seria não convidá-lo. Aliás, gratidão é o tema do video. Com um pouco de paciência, verão que se trata de um gênio. E, para os que não veem, passo a bola ao outro convidado, com o intuito de virar o jogo. No título apresento o nome do Alex e omito o do Armando Nogueira para salientar que um camisa dez sempre tem prioridade para mim, apesar de tão preterido no futebol mundial, ultimamente. Além disso, o que escreve com as mãos já é praticamente de casa.

O ano dourado de Alex

Está terminando o ano de todas as folhinhas, inclusive, o do futebol. Não há como deixar de recordar momentos inesquecíveis de um craque que, acima de todos, marcou o campeonato com a excelência de seu prodigioso futebol. Falo de Alex. Revolvo o baú de meus escritos, com a fervorosa intenção de selecionar textos nos quais exaltava cada partida de Alex. Ninguém, nem aqui, nem na Europa, nem na Conchinchina, ninguém, repito, exprimiu tão bem as delícias do futebol quanto esse sereno jogador cuja perna esquerda nasceu com o dom de fazer poesia com uma bola.

No começo da temporada, eu escrevia:

Duvido que haja, em todo o Brasil – suponho que em todo o mundo – alguém jogando o futebol portentoso que anda jogando o Alex. Ele tem, hoje, domínio completo do que vai pelo campo. A percepção do jogo é esférica, total. O discernimento é fulminante. Num relance, Alex pressente, delibera e executa. Se na música existe o maestro de ouvido absoluto, no futebol, há de existir o olhar absoluto. Quando os outros ainda não viram nada, Alex já viu tudo: a bola, o adversário, o companheiro. Se não é antevisão, há de ser presságio…

Prodígios e melancolia

O toque de bola de Alex é sempre revestido de simplicidade e elegância. Só conheço outro meia de armação, assim tão rico de atributos técnicos e mentais que é o francês Zidane, do Real Madri. Além de um grande esmero, os dois se distingüem por uma virtude raríssima, mesmo nos grandes craques, que é a instantaneidade com que executam um passe. A bola mal chega, já saiu do pé, levemente tocada adiante, com rara precisão. Alex é um padrão de sobriedade. Jamais afeta um gesto. Seu futebol nada tem de efusivo. Ao contrário, ele atravessa uma partida, jogando com extrema sobriedade. Faz prodígios, mas, sempre com um traço de melancolia que, certamente, provém das três raças tristes de que é feito o povo brasileiro.

Um verso no pé

É cada vez mais requintado o estilo de jogo de Alex, do Cruzeiro. Ele tem com a bola uma relação do mais fino trato. É um criador de trajetórias; inventor de gestos lúdicos. O passe dele é um verso. Aliás, quem vive cobrando mais constância de Alex ainda não parou pra pensar numa coisa: Alex é um legítimo poeta do jogo e, como tal, depende de sopros de um espírito misterioso. Ninguém é poeta 24 horas por dia.

A propósito, é de uma poeta, Adélia do Prado, o seguinte desabafo: “De vez em quando, Deus me tira a poesia: olho pedra, vejo pedra mesmo.” Pois com Alex dá-se o mesmo: de vez em quando, ele sai do ar, pra reaparecer, mais adiante, com um verso no peito do pé.

O gênio do comedimento

É comum a gente ouvir alguém dizer, depois de um jogo do Cruzeiro: Alex não jogou tudo que sabe. Contra o Santos e contra o Corinthians, também, ouvi a mesma sentença. Em cada partida do Cruzeiro, Alex faz duas ou três jogadas simplesmente fabulosas, com fulminante rapidez e extrema simplicidade. Será que isso não basta? Poucos reconhecem que Alex é o que se pode chamar um “gênio de comedimento”.

Alex: lâminas afiadas

Alex, é diferente: a bola é que tenta estar sempre no lugar em que ele quer que ela esteja. Se ele se omite, é pro bem da bola e da equipe. Aliás, o verbo justo não é omitir-se, que Alex não se esconde jamais. Alex transfigura-se. Mimetiza-se. Está em campo e não está. É esquivo, fugidio, intermitente. Sempre houve figuras assim, no futebol. Ipojucan, no Vasco, era assim: de repente, todos o perdiam de vista, menos a bola. Didi também tinha muito de camaleão; ele sumia do jogo. Transmudava-se. Virava grama. O público sentia falta dele, a equipe, não. Jogar sem a bola é exercitar a virtude do desprendimento. Alex joga sem a bola. Finge aceitar a marcação. Quando o sanguessuga menos espera, ele ressurge, chuteiras refulgentes como lâminas afiadas.

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