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Posts Tagged ‘Campeonato Brasileiro’

La mano del hombre

Com a ajuda de um colega, elegi meu destaque desse campeonato brasileiro. Não. Pelo amor de Deus. Ele não foi o melhor da competição. Nem o pior. Foi um nada que mereceu destaque. Devo por precaução dizer que o destaco menos por algum de seus feitos; mais por algo que lhe aconteceu; pelo amor de Deus para com os homens. O escolhido: Diego Tardelli.

No jogo entre Flamengo e Portuguesa, o jogador do clube carioca usou a mão. O último gol do Flamengo teve, digamos, a mão de Diego. Recordo-lhes que o primeiro também foi irregular, também feito com a mão, do zagueiro Ronaldo Angelim. Como diria um amigo: Handwerk. Isso mesmo: dois gols feitos com auxílio do membro proibido no futebol. E, como se não bastasse, num terceiro lance, quando a partida estava 2 x 2, Tardelli tentou ludibriar o juiz outra vez, mais à vista que as outras. Recebeu o cartão amarelo seguido do vermelho.

(A humanidade anda mesmo afastada de Deus, apesar das igrejas em cada esquina. Demorou aproximadamente três partidas de futebol para que um recado, quase em forma de castigo, chegasse até nós). No jogo contra o Cruzeiro, o jogador que usou a mão duas vezes para alcançar uma vitória teve seu braço fraturado. No lance, sequer foi falta. Foi, seguramente, um recado dos Céus. E Ele não se manifestou para nos ensinar que é proibido usar a mão num jogo de futebol; essa regra pertence aos homens. Não precisamos de uma aparição divina para confirmá-la. Até porque não me lembro de Deus ter fraturado o braço do outro Diego depois do jogo da Argentina contra a Inglaterra. Pelo contrário, há quem diga que Ele foi o autor do gol.

Suspeito que Tardelli foi eleito como mensageiro unicamente por conta do lance seguido da expulsão. Um movimento completamente desnecessário, alguém até diria: involuntário, praticamente um reflexo, como aquele de nossa perna quando o médico acerta o martelinho no ponto certo. Lançaram a bola numa altura propícia, num jogo onde já haviam ocorrido dois gols manufaturados. O braço se moveu sozinho. Prova disso é o instantâneo arrependimento do jogador rubro-negro. Diego Tardelli faria mais caso ficasse parado; o recado me parece ser esse. Seu erro foi, justamente, não fazer nada, fazer nada. Procedeu pelos mesmos motivos desnecessários, irrelevantes e vazios de um reles reflexo.

Se mão do homem tivesse um pouco mais de paciência para entrar em ação somente nas horas precisas, habitaríamos algum outro mundo, quiçá mundo algum. Deus teria menos trabalho. Menos trabalhadores manuais para fulminar com seus raios. Talvez nenhum trabalho. Mas a gente não tem jeito: a mão não se agüenta, mesmo sem querer, sem vontade, sem real motivo, não pára de trabalhar, de construir já pensando em destruir pra construir. Só paramos de meter mão onde não devemos em raras ocasiões, como naquela que precede nosso nascimento e noutra, que sucede nossa morte. Reparem a volta de Diego Tardelli aos gramados: de braço curado e cabeça quente, encostou a mão no árbitro, que prontamente lhe expulsou.

P.S.: Concordo. Estou sendo ingrato, injusto e preconceituoso. Usei a palavra homem como sinônimo de ser humano. Desconsiderei-as. Só depois me dei conta de que a mais bela mão dentre aquelas que tocaram um fruto proibido foi mão feminina. Se for verdade que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher, devo confessar que nos fundos dessa crônica mora um outro título, sem dúvida mais belo e sensual.

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Por uma daquelas coisas sem explicação, os tricampeonatos parece carregar mais simbolismo que um tetra ou um penta. Aos tricampeões as taças definitivas, as estrelas na camisa, as glórias inesquecíveis.

Isso só pode acontecer num esporte onde o 10 vale mais que 100. O futebol tem sua numerologia particular.

E assim, o Tricampeonato é a santíssima trindade do futebol. O pai, o filho e o Espírito Santo.

Mas permita-me, amigo leitor, fazer uma substituição. Sai o Espírito e entra o avô. O meu avô.

Meu avô não nasceu São Paulino. Era fiel ao time que serviu como goleiro. Meu avô era torcedor do glorioso São Bento de Sorocaba.

Nunca se deixou seduzir pelos craques dos gramados da capital. Pelé? Canhoteiro? Sócrates? Pouco importava. Até nutria simpatia pelo Fluminense, mas seu coração era azul e branco.

Mas meu pai se fez São Paulino e eu, assim, nasci tricolor.

Eis que começa uma transformação. Meu avô lentamente se converte, lentamente se torna São Paulino como o filho e como o neto.

Títulos e jogadores famosos nunca seduziram Hécio Popst, a conversão se deu pelo futebol ser o que consegue unir gerações distintas.

O que no mundo tem esse poder de união? O futebol é assunto sem obsolescência. Futebol é o amor atemporal. Futebol é alemão conversando acaloradamente com o argentino. Futebol é o judeu cantando o hino abraçado com o cigano. Futebol é o neto conversando com o avô.

Meu avô virou São Paulino por desejo inconsciente de preencher essa santíssima trindade. Por amar as pessoas que o rodeavam, por saber que o elemento comum nas nossas vidas era o amor pela pelota.

Mas a bola é implacável. A bola rola como a vida.

E no dia 8 de Novembro meu avô faleceu.

O último presente que ganhei dele, 2 semanas depois do seu falecimento, foi uma toalha de 3 cores.

3 cores! Uma para cada geração.

O negro do luto;

O vermelho do riso;

O branco da paz de espírito.

Toalha tricolor que serviu de bandeira improvisada exatos 30 (3×10) cabalísticos dias depois da sua morte.

E veio Tri. Inesquecível e incrivelmente mais relevante que o hexa (3×2).

Veio o 3! Por que tudo que é relevante, caríssimo leitor, é ímpar. Como o pai, o filho e o meu Avô.

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