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Posts Tagged ‘estádio’

Casa vazia

Eduardo Galeano disse que se entrarmos num estádio vazio, com alguma atenção, ouviremos vozes do passado. Que as partidas épicas entranham-se no cimento e ressoam ali por um período indeterminado. O choro dos brasileiros na final de 50, talvez o exemplo mais marcante para nós. E para ele, que é uruguaio. Refutar essa tese seria impossível para mim. Pois nunca entrei num estádio vazio. Digo, completamente vazio.

Há algum tempo meus pontos turísticos principais tem sido os estádios. Grandes ou pequenos. Em Natal, praticamente invadi um conjunto de prédios para ter visão do campo do Alecrim Futebol Clube. Disseram-me que Garrincha jogara no Alecrim. Logo, eu precisava aproximar-me ao máximo do campo que Garrincha pisou. Mas não ouvi vozes nem vi espectros de suas investidas na lateral do campo.

Em estádios maiores é comum se comercializar o “tour” pelo local. Visita-se vestiários, salas de imprensa, tunel de entrada, beira do campo e arquibancadas. Mas ali não há silêncio. O guia não para de falar. Por algum momento, geralmente nas arquibancadas, pode-se desvencilhar um pouco do grupo e ter uma experiência próxima da que Eduardo Galeano descreveu. Mas não escuto nada.

Aliás, estou bem convencido de que poucas coisas são mais patéticas que visitar um estádio vazio. Conheçamos seu passado ou não. No Chile, visitamos o Estádio Nacional. Eu sabia, mas não lembrava: o estádio foi usado como prisão e local de tortura na ditadura militar. A abordagem do vigia, permitindo uma caminhada nos arredores mas proibindo a entrada no estádio e “- Nada de fotos!”, não lembrou-me de seu passado aterrorizador. Talvez ali vozes emanassem do concreto cinza e envelhecido. Mas não havia silêncio para tanto.

Aproximando-nos do estádio vimos pessoas e portas abertas. Num pálido mas ainda sim desafio à ditadura, entramos. Tinha jogo. Campeonato infantil. Na arquibanca a torcida mais apaixonada de todas: as famílias dos meninos. Jogo feio, truncado, poucos lances de efeito, porém um lugar muito mais significante que vestiários, corredores, arquibancadas. Aliás, sentido era o que sobrava. Música da FIFA na entrada dos pequenos atletas e Cordilheira dos Andes como pano de fundo.

Certamente o estádio mais belo que visitamos. Assim como a cidade mais encantadora foi Santiago. O caso é que poderia ter sido outro estádio e outra cidade. Pois não tivesse aquele vigia exibindo sua autoridade falida para a burlarmos e os meninos exibindo seus talentos incipientes para imaginarmo-nos, o estádio não teria dito o que nos disse. Não fosse aquela noite no bairro Bela Vista que gerou amizades que perduraram e tantas outras que ali mesmo desapareceram, mais ainda com a máquina que se foi, Santiago não teria o brilho que teve.

Silêncio no estádio só mesmo daquele tipo que o Romário provocou em 2000, jogando pelo Vasco e contra o Curzeiro, no Mineirão. Toque sutil, tirando do goleiro, gol aberto. A jornada da bola até a rede ainda era longa. Ela, sem a menor pressa, aproximava-se da meta. Silêncio total no estádio, respiração coletivamente presa. A bola beija a trave e sai. Junto com o ar dos milhares de pulmões presentes.

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Geralmente nossos convidados detém a última palavra. Dessa vez, publico um texto de Eduardo Galeano para depois refutá-lo. Mas enquanto não o refuto, desfrutem-no. Depois também.

O estádio

Você já entrou, alguma vez, num estádio vazio? Experimente. Pare no meio do campo, e escute. Não há nada menos vazio que um estádio vazio. Não há nada menos mudo que as arquibancadas sem ninguém. Em Wembley ainda soa a gritaria do Mundial de 66, que a Inglaterra ganhou, mas aguçando o ouvido você pode escutar gemidos que vêm de 53, quando os húngaros golearam a seleção inglesa. O Estádio Centenário, de Montevidéu, suspira de nostalgia pelas glórias do futebol uruguaio. O Maracanã continua chorando a derrota brasileira no Mundial de 50. Na Bombonera de Buenos Aires, trepidam tambores de há meio século. Das profundezas do estádio Azteca, ressoam os ecos dos cânticos cerimoniais do antigo jogo mexicano de pelota. Fala em catalão o cimento do Camp Nou, em Barcelona, e em euskera conversam as arquibancadas do San Mames, em Bilbao. Em Milão, o fantasma de Giuseppe Meazza mete gols que fazem vibrar o estádio que leva seu nome. A final do Mundial de 74, ganho pela Alemanha, continua sendo jogada, dia após dia e noite após noite, no estádio Olímpico de Munique. O estádio do rei Fahd, na Arábia Saudita, tem palco de mármore e ouro e tribunas atapetadas, mas não tem memória nem grande coisa que dizer.

El estadio

Ha entrado usted, alguna vez, a un estadio vacío? Haga la prueba. Párese en medio de la cancha y escuche. No hay nada menos vacío que un estadio vacío. No hay nada menos mudo que las gradas sin nadie. En Wembley suena todavía el griterío del Mundial del 66, que ganó Inglaterra, pero aguzando el oído puede usted escuchar gemidos que vienen del 53, cuando los húngaros golearon a la selección inglesa. El Estadio Centenario, de Montevideo, suspira de nostalgia por las glorias del fútbol uruguayo. Maracaná sigue llorando la derrota brasileña en el Mundial del 50. En la Bombonera de Buenos Aires, trepidan tambores de hace medio siglo. Desde las profundidades del estadio Azteca, resuenan los ecos de los cánticos ceremoniales del antiguo juego mexicano de pelota. Habla en catalán el cemento del Camp Nou, en Barcelona, y en euskera conversan las gradas de San Mamés, en Bilbao. En Milán, el fantasma de Giuseppe Meazza mete goles que hacen vibrar al estadio que lleva su nombre. La final del Mundial del 74, que ganó Alemania, se juega día tras día y noche tras noche en el Estadio Olímpico de Munich. El estadio del rey Fahd, en Arabia Saudita, tiene palco de mármol y oro y tribunas alfombradas, pero no tiene memoria ni gran cosa que decir.

Texto retirado do livro: Futebol ao sol e à sombra, de Eduardo Galeano, editado por L&PM.

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