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Posts Tagged ‘gol’

Idealizada há algum tempo, a seção “Recordar é sobreviver” faz sua estreia no blog. Artifício também conhecido como reblog. É isso mesmo. Em temporadas de baixa inspiração repete-se os melhores momentos do passado. Aproveitarei algum acontecimento atual como ensejo, na melhor das hipóteses. No caso de hoje, o gol de bicicleta de Leandro Damião.

Amor, gol de bicicleta e Copa do Mundo (por Bernardo Boelsums)

No livro Cartas a um jovem poeta, palavras de Rainer Maria Rilke: amar exige uma força e delicadeza tão grandes que todas as outras ocupações parecem um estágio preliminar.

Suspeito que o mesmo se passe com o gol de bicicleta. Conseguir três embaixadinhas seguidas, matar uma bola no peito, dominar um passe, dar um passe, assistir a um craque em campo, em tudo isso subsiste um treinamento para dar uma bicicleta. Engatinhar, andar, equilibrar-se numa perna só, pular, dar cambalhotas, tudo isso também. O golpe certeiro de uma bicicleta precisa carregar um passado imenso. E não se trata de um passado de treinamentos explícitos dessa jogada.

Para Nelson Rodrigues, Leônidas da Silva a inventou. A partida: Brasil e Argentina, em São Januário. Eduardo Galeano atribui a patente ao chileno Ramón Unzaga, que a criou no campo do porto chileno de Talcahuano. Acertaram ambos. A jogada não é uma invenção qualquer. Depois de inventada as pessoas não saíram por aí fazendo gols de bicicleta, como hoje se usa telefone celular. Para usá-la é preciso ter a mesma perspicácia de quem a inventou, reinventá-la. Esperar o tempo certo, não ter gana demais. É preciso respeitar a vontade da ocasião, ou escutar o silencioso pedido da bola e suportar com leveza o peso de ter treinado sua vida toda para aquele momento.

E assim é a Copa do Mundo. Para os jogadores, títulos da Libertadores, Liga dos Campeões, Copa América ou Eurocopa parecem flexões matinais. E para nós, contempladores do futebol? Antes mesmo do primeiro toque na bola, há mais beleza na imagem do jogo. Um lance bonito torna-se mais plástico. E um gol de placa pode atravessar gerações.

Imaginem: um gol de bicicleta, oriundo de uma cobrança de escanteio. O jogador acerta a bola na entrada da grande área encaixando-a no ângulo direito do goleiro. Acreditem, por um capricho do destino, por uma curva de última hora que parecia brincadeira dos deuses, este gol desaconteceu na Copa de 94. O autor da jogada, para mim, seu inventor: o zagueiro norte-americano Lalas. Não havia visto nada igual.

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Gol tem dono? É inegável que o árbitro titubeie em alguns casos. Mas ontem não foi indecisão que o juiz sentiu. O gol foi do Nilmar. Sobretudo por ter driblado meio time do Corinthians antes de arrematar; e também por tê-lo feito a partir de um lance nada promissor na intermediária. Literalmente, fez o gol, como quem extrai escultura de um bloco de mármore.

De fato, para a súmula isso não conta. Basta esbarrar na bola ao cruzar a linha para tornar-se autor, sequer a intencionalidade é requisito para uma autoria. Mas desconfio que se uma dessas pessoas, cujo dom é interpretar caligrafias, estudasse a súmula do jogo de ontem, diria que a palavra Nilmar foi escrita com admiração. Juiz também admira. Mais que todos, ele precisou notar que o jogador decidiu continuar o lance apesar da forte falta sofrida em um dos dribles. Nada mais mesquinho que cavar falta diante de uma grande oportunidade de gol. E nada mais louvável que continuar uma jogada diante de uma impossibilidade transformando-a em realidade. O gol do Nilmar não foi apenas bonito, foi um ensinamento.

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