Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘Juiz’

Juízo sobre juízo de juízes

O homem é um animal racional. Com alguma razão, erramos na tradução dessa frase. Pelo menos no lugar de “animal” deveria estar “vivente” ou “ser vivo”. Mas, está certo, uma vez que errar é humano; duas vezes, o mesmo erro, que nos enquadra na família dos burros. As recorrentes pisadas na mesma bola atestam uma das mais perspicazes definições do ser vivo racional: “um quadrúpede bípede”.

No campeonato brasileiro de 2004 vi um árbitro admitir seu erro. Para se justificar, proferiu o seguinte juízo: “- Não sou uma máquina, cometo erros como qualquer outro ser humano”. Sensibilizado, acatei a justificativa. Pareceu-me incontornável e bastante sensata, como se estivéssemos exigindo deles algo que ultrapassa suas e nossas forças. Quase tive pena de nós. Se não me engano, ouvi a mesma pessoa reivindicar um recurso eletrônico para implicar com os erros dos jogadores, igual àquele que implica com os dos árbitros nos lances de impedimento.

Neste último brasileirão, outro árbitro se justificou através do reincidente erro humano, que foi, sem dúvida, mais aceitável que o de cinco anos atrás. Desta vez não me sensibilizei. Tamanha frieza só mesmo por conta do meu time estar na briga pelo título; e tamanha sensibilidade só mesmo por conta do árbitro anterior, salvo engano, torcer pro meu time. Nem tanto. Se fosse isso, por trás da indiferença jazeria uma segura convicção de má fé do juiz, que de mãos dadas com todo o universo conspirara contra o título de um time forasteiro, não pertencente ao eixo São-Paulo. A justificativa do árbitro não funcionou e sequer teve efeito contrário, não coloquei em xeque a boa intenção dele. Acreditem, não estou em condições de avaliar moralmente a conduta do próximo. Apenas constatei que o juízo é traiçoeiro: pode afirmar o que tenta com veemência negar; corre o risco de dar de cara com o motor da fuga, como as vítimas nos filmes do Jason. Aconteceu também com Édipo.

Um amigo recebeu do caixa eletrônico mais dinheiro que pediu. Conferiu o extrato e assegurou-se que o montante à mais não havia sido descontado.  Tenho quase certeza que ele hora alguma desconfiou da máquina, como se dela emanasse algum tipo de teste de moralidade. Sequer imaginou que se tratava de um gesto visando a uma melhor distribuição de renda em nosso país desigual. A máquina errou: ponto final. E esse não é o ponto quando um erro humano acontece, sobram vírgulas, interrogações, exclamações,  reticências. Suspeitas e bandeiras são levantadas, motivos admiráveis ou repulsivos criados, a discussão inicia e dificilmente sossega.

No mesmo ano de 2004, um outro profissional da arbitragem deixou bastante claro para todos que não era uma máquina. Confessou diversas tentativas de manipulação de resultados envolvendo um site de apostas. E ainda hoje há quem suspeite de sua confissão, como se tivesse sido armada para realizar outra vez jogos supostamente manipulados.

Realmente: não somos máquinas, porque travestidos de simples erros podem estar intenções que só os padres de antigamente seriam capazes de saber; ou não (às vezes um erro é, de fato, só um erro), o que complica tudo. Pois, julgar é tarefa complicadíssima, apesar de tão praticada por esse ser vivo racional que somos. E esses árbitros, com suas contraditórias justificativas, exigindo de nós todos posturas sobre-humanas. Atitude mais controversa que essa só mesmo a do povo, que maldiz a mãe do juiz, logo ela, a única que alguma vez, de coração, lhe exigiu juízo.

***

Devo dizer que acho bastante curioso o fato de, nos dias de hoje, ainda não constar um jogo eletrônico de futebol onde se possa controlar a arbitragem. A comissão nacional de árbitros deveria se mobilizar para exigir essa opção. Imaginem: apitar o jogo daquele amigo que nos vencia e arrasava ininterruptamente sem qualquer compaixão, quase como uma máquina! Que grande oportunidade para julgarmos e julgarem nosso caráter! Na pior das hipóteses, podemos jogar a culpa no controle, que não se comportou como deveria, e arremessá-lo contra a parede; assim não restará dúvidas sobre o que de fato não estava funcionando bem. Ou surtirá o efeito contrário: duvidarão para sempre de nosso caráter.

Anúncios

Read Full Post »