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Posts Tagged ‘Pelada’

Futebol pereba

Lembra um pequeno povoado, quase sem contato com a civilização. Solte um dos jogadores do futebol pereba numa pelada da PUC e observe o acontece. Parecerá tão perdido quanto um índio jogado no meio de São Paulo.

Cultivam um bem-estar de causar inveja no habitante do lugar mais civilizado. Dentro de seus limite, praticam o futebol em toda sua grandeza. Descartes costumava dizer que uma pessoa que sai buscando verdades aos trancos e barrancos, mais na vontade do que na técnica, pode acertar. Mesmo sem método, como alguém que busca tesouros ensandecidamente cavando no meio de uma praça pública, a probabilidade de acerto não é zero. No meio daquela simplicidade ainda era possível surgir jogadas complexas e admiráveis.

Mais curioso que isso só o fato dos participantes do futebol pereba serem, em sua maioria, cientistas. Sim: físicos, biólogos e ecólogos. Pesquisadores do mundo natural. Ciência mesmo. Nada de história, sociologia, pedagogia, letras. E o que as ciências não podem admitir é a particularidade. Melhor, ela pode admitir a particularidade mas não deve visá-la. O particular há de ser sempre ultrapassado em vista do universal. A verdade precisa ser globalizada, divulgada, publicada em forma de paper, se possível, na revista mais lida do mundo. Uma ciência que se enclausura em seu mundo particular seria uma ciência pereba.

Há quem diga que esse enclausuramento é impossível. De fato, mais cedo ou mais tarde a civilização bate na sua porta. Não bateu na dos índios? Bateu também na do futebol pereba.

Jogando no aterro do Flamengo, num domingo bonito, um chute desgovernado fez a bola atravessar o campo e passar por algumas árvores. O físico foi buscá-la. De lá tentou chutar a bola duas vezes, não conseguiu: acertou as árvores nas duas tentativas. Na segunda a bola bateu e desviou para perto de um morador de rua, que, com seus trinta e dois anos, tomava banho com um balde, puxando água de um bueiro. Nem ajeitou a bola, como havia feito o físico cuidadosamente. Bateu nela como gente civilizada. Acho que todos admiraram. Ninguém comentou nada.

Foi o mundo às avessas. E tem gente que reluta em admitir que o futebol contém propriedade filosófica.

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Previsão do tempo

Eu jogava bola na rua, descalço. Hoje, jogo calçado num campo feito do mesmo material da sola de meu calçado. Eu jogava bola o tempo que fosse preciso, de graça. Hoje, pago para jogar uma hora por semana. Há inclusive uma página na rede que nos ajuda a organizar a partida, para não faltar ou sobrar gente demais. Na rua, nunca faltava ou sobrava, eram sempre os mesmos, talvez a maior fidelidade que nessa vida eu venha a conhecer, quiçá na outra. (mais…)

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